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ARTIGO

Tabata e a nova forma de partido

'Partidos políticos nem sempre existiram; já a política é anterior a eles'

7 AGO 2019 - 14h:53Por Fausto Matto Grosso

A votação da deputada Tabata Amaral a favor da Reforma da Previdência, contrariando a orientação de seu partido, tem enorme significado. Permite a discussão da relação entre os partidos e os movimentos de renovação política.

Partidos políticos nem sempre existiram; já a política é anterior a eles, desde a polis grega. Será que os partidos continuarão existindo para sempre, ou são instituições com prazo de validade?

Segundo Bobbio, a origem do partido pode remontar à primeira metade do século XIX, na Europa e nos Estados Unidos. É o momento da afirmação do poder da classe burguesa sobre a aristocracia, de um ponto de vista político, é o momento da difusão das instituições parlamentares.

Como referência podem ser citados os partidos Federalista (democratas) e Republicano nos Estados Unidos, os Tories (conservadores) e  Whigs (liberais) na Inglaterra, e os Jacobinos e Girondinos na França. Esses partidos se opunham entre si por suas convicções e interesses sociais e econômicos.

Hoje os partidos se constituem de um grupo de dirigentes, de alguns detentores de mandatos, de um séquito de filiados, de uma organização difusa e estável, e de um corpo de funcionários pagos especialmente para desenvolver atividade de organização partidária. Nem sempre representam ideologias e programas claros.

Não tendo nascidos prontos, ao contrário, os partidos são criações históricas, essa forma-partido não está condenada à eternidade e atravessa por sérios questionamentos na atualidade.

Um dos primeiros sinais de rebelião veio da Espanha em 2011 com o movimento dos indignados. Em março de 2013 chegam ao Brasil em grandes manifestações em todo o país. “Vocês não representam”, gritavam os jovens nas ruas, mobilizando inúmeros outros setores da sociedade pelas redes sociais. As novas tecnologias de informação e comunicação começaram a mostrar que era possível fazer política sem partidos políticos.

Assim surge no Brasil uma série de organizações demandando por renovação política, com amplitude ideológica que ia da centro-esquerda até a direita. Inicialmente, eram meras redes de mobilização, mas várias delas foram se cristalizando como espaços de formação de novos quadros para a política. É caso do Acredito, do Agora, do RenovaBR, dos Livres, do Movimento Brasil Livre, entre outros. De negação pura e simples, acabaram se transformando em instrumentos de “reconciliação” dos jovens com a política.

Para que pudessem ter participação no processo eleitoral, esses movimentos começaram a buscaram espaços partidários, inicialmente na Rede Sustentabilidade e no PPS (atual Cidadania) com os quais formalizaram acordos explícitos. Mas também no PSB, no PDT, no DEM e no Novo. As eleições de 2018 foram o grande momento de sucesso dessas iniciativas, quando elegem cerca de 34 representantes, entre deputados e senadores, por 11 partidos diferentes.

É assim que surge Tabata Amaral, vinculada ao Acredito, e eleita através do PDT, como uma das deputadas federais mais votadas do País.

O caso Tabata, com seu voto a favor da Reforma da Previdência, representa muito mais do que um simples caso de indisciplina partidária. Trata-se da do entrechoque entre a renovação política e as estruturas convencionais dos partidos.

Os partidos terão que passar por um profundo processo de transformação interna se quiserem se integrar à nova forma de fazer política. Não mais organizações hierarquizadas, burocráticas, fechadas à participação da militância e da própria sociedade. Não mais o centralismo, pretensamente “democrático”, mera expressão dos caciques e coronéis, que controlam maquinas azeitadas para sua infindável reprodução. Para a interlocução com os movimentos da sociedade, deverão se transformar de partidos-maquinas em partidos-movimentos.

O mundo mudou. Apenas aqueles partidos que estiverem atentos a isso, poderão ter sobrevida e algum protagonismo no futuro.

 

 

 

 

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