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COMBATE AO PRECONCEITO

Casos de LGBTfobia cresceram durante a pandemia em MS

Mais da metade foi registrado em 2021, ano em que lei estadual de combate à homofobia completa 10 anos

18 MAI 2021 - 14h:02Por Giovanna Dauzacker

“Basta você existir, pra que uma pessoa que não gosta da sua existência querer impedir”, o relato é do estudante campo-grandense Enzo Madetta, que sofreu o primeiro caso de homofobia nas ruas da Capital no início de 2020. “Esse cara chegou, segurando no meu braço e perguntando porque que eu achava que podia ser ‘veado’”.  

Casos como esse são comuns no país. Segundo o relatório da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Intersexuais (ILGA), o Brasil ocupa o

Enzo Mandetta é influenciador e estudante de administração.

primeiro lugar na América em quantidade de homicídios de pessoas LGBT. No ano passado, em meio à pandemia, pelo menos, 237 pessoas foram vítimas desse tipo de preconceito.

Dados somente sobre crimes de ódio contra LGBT+ são difíceis de encontrar. Como a LGBTfobia passou a ser reconhecida como crime de racismo em 2019, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), informações oficiais são divulgadas no geral, com crimes cometidos por cor ou raça, por exemplo.

Em Mato Grosso do Sul, segundo o registro do Ministério Público Estadual, que contabilizou os dados acerca de homofobia e temática LGBT, casos LGBTfobia aumentaram em mais de 30% durante a pandemia. Foram 31 casos, sendo 13 apenas em 2021, ano em que a Lei Estadual que cria o Dia de combate à homofobia completou 10 anos.

Promotor Eduardo Cândia, que atua na 67º Promotoria.

O aumento, segundo o promotor de justiça Eduardo Cândia, pode estar ligado à disseminação do ódio no meio virtual. “A gente percebeu esse aumento da demanda, especialmente em razão da utilização das redes sociais”.

O promotor atua na 67ª Promotoria de Justiça de Campo Grande, local especializado em atendimentos de pautas voltadas ao público LGBT. Segundo ele, a criação de um dia para lembrar do combate é uma forma de reconhecer e auxiliar no surgimento de políticas públicas para este grupo.

 “Essa lei apenas estabelece um dia. Mas é importante porque possibilita essa visualização da classe. De 10 anos pra cá, tiveram muitos avanços, como o nome social para pessoas transexuais, casamento entre pessoas do mesmo sexo, não só em razão da lei, mas que são inquestionáveis”, explica.

Para o estudante Enzo Mandetta, ter uma data específica é sim importante. Mas a batalha é algo que deve ser lembrada todos os dias. “A comunidade tem muita luta pela frente. Infelizmente não é só em maio que a gente deve ser lembrado, já que as pessoas sul-mato-grossenses têm uma mente muito fechada que tem que ser desconstruída”, lamenta.

Mesmo com dias como o 17 de maio, que marca, além do dia de combate à homofobia no Estado, o Dia Internacional de Luta Contra a Homofobia, o medo e a insegurança na

Samuel Godoy é jornalista e voluntário na ONG LGBT+.

hora de denunciar ainda são bem latentes, o que acaba levando algumas pessoas a buscar outras soluções, como é o caso do jornalista Samuel Godoy.

“Eu procuro buscar ajuda sempre com amigos ou com a própria comunidade, porque sei que se eu denunciar, talvez o caso nem seja levado à sério pelas autoridades. Ainda existe essa incerteza na efetividade na lei”.

 

Isolamento

Durante a pandemia da Covid-19, o isolamento social se fez extremamente necessário. Mas para algumas pessoas LGBT+ que não são aceitas pela família, ficar em casa acaba causando dor e sofrimento.

“Muitos LGBT’s acabaram se vendo obrigados a conviver com familiares que não os aceitam como são e, infelizmente, essa obrigação de estar dentro de uma família que não aceita traz grande sofrimento para as pessoas, à nível de saúde mental”, explica a gestora do Espaço Cultura da Casa Satine, Karla Melo.

testeCasa Satine auxilia pessoas LGBT's em Campo Grande.

Para ajudá-los a enfrentar esses paradigmas da sociedade, a Casa Satine presta atendimento psicossocial, e viu a demanda aumentar em razão da pandemia. “Elas precisaram de um auxílio, um apoio psicológico, até as pessoas que também tiveram a renda quase nula, porque é um momento de dificuldade e desespero e aí a gente intensificou bastante a atuação da Casa”.

Além dos atendimentos psicossociais gratuitos, o local auxilia também de forma jurídica quem precisa enfrentar o preconceito. Para entrar em contato, tanto para fazer parte de forma voluntária, como para buscar auxílio, é só procurar as páginas da Casa nas redes sociais.

 

Denúncias

Se você sofreu algum tipo de preconceito ou conhece alguém que tenha passado por isso, denuncie. As denúncias podem ser feitas por meio do Disque Direitos Humanos, o disque 100, ou ao Ministério Público, pelos telefones 127 ou 0800-647-1127. 

 

 

 

 

 

 

 

 

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