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Paratleta quase encerrou a carreira e acabou na seleção

Silvânia teve a vida mudada completamente pelo atletismo e pode mudar para São Paulo

22 NOV 2012 - 08h:39Por Arthur Freire/JP

Silvania Costa de Oliveira, 25 anos, atleta da seleção brasileira paralímpica principal. Atualmente, o sorriso toma conta da face da jovem que tem apenas 5% de visão. Mas, em maio deste ano, uma contusão quase pôs tudo a perder. Silvânia pensou em abandonar a carreira, esquecer as pistas de atletismo, já que a lesão a impossibilitou de disputar as Paralimpíadas de Londres.

Jornal do Povo – Como você ficou sabendo de sua inclusão na seleção brasileira paralímpica de novos e qual foi a sua reação?
Silvânia Costa de Oliveira – Para mim, foi muito surpreende porque foi uma fase em que eu estava quase parando com o atletismo. Foi depois de Londres [Paralimpíada] porque vi que realmente não estava lá. Aí, me convocaram para a seleção porque viram que eu tinha condições de chegar ao Rio 2016. Foi uma reação muito rápida. Foi como um incentivo. Fiquei sabendo através de um e-mail que enviaram para o meu técnico perguntando se eu poderia participar da seleção de jovens.

JP – Quando você disse que iria parar com o atletismo foi exatamente por quê?
SCO –
Por conta de uma lesão que eu tive na Espanha. Foi muito grave. Isso me desanimou porque eu queria treinar e não conseguia. Abri o revezamento 4x100 e na curva à direita e em todo o momento eu forcei uma perna e a gente não tinha treinado para essa prova. Foi improvisado na hora. Senti como se tivesse arrebentado um cordão na perna. Em julho, era a primeira seletiva para Londres. Sabia que estava machucada, que não estava treinando e aquele sonho que eu tinha certeza de que iria [realizar] estava se acabando. Desanimei bastante. Pensei em parar e nunca mais voltar para uma pista. Foi horrível. O maior medo nosso como atleta são as lesões.

JP – Você teve um período de treinamento na seleção de novos. Como foi esse treinamento?
SCO –
Ficamos uma semana em São Paulo junto com os técnicos. Todos os atletas foram avaliados. Estivemos no Pão de Açúcar [clube] e no Instituto do Sono, onde fomos acompanhados por nutricionistas, fisioterapeutas, médicos... Eles avaliaram tudo. Desde comportamento até nossa reação, nossas atitudes... Observaram tudo!

JP – No e-mail de convocação para a seleção de novos, constava que dois paratletas seriam incluídos na seleção principal. Você esperava ser um desses dois ou foi surpresa?
SCO –
Eu já esperava. Eu sabia porque tenho muita determinação. Quando quero ganhar uma competição, seu eu chegar de cabeça‘firme’, pensando positivo, mesmo treinando ou não, eu consigo. Então, eu tenho esse meu lado que é muito bom. Sabia que com esses 20 atletas seria muito concorrido, mas sabia que ninguém era melhor do que eu. Eu treinei muito, me esforcei muito e sabia que poderia conseguir isso.

JP – O que te falaram quando confirmaram que você foi escolhida?
SCO –
Me falaram que a Caixa [Econômica Federal] estava investindo em atletas para 2016 e que eu era um deles. Disseram que estão me observando há muito tempo sem nem eu perceber. Acompanham meus resultados. Já tem cinco anos que eu corro no Circuito Caixa e perceberam que os meus tempos vêm melhorando. Então, não foi de agora.

JP - Fizeram uma oferta segundo a qual você terá que mudar de Três Lagoas. Qual é?
SCO –
Eles oferecem hospedagem, alimentação, nutricionista, fisioterapeuta, médico, a melhor pista hoje no Brasil, que é da BMF. A única pista no Brasil que tem indoor, com uma estrutura muito grande e muitos profissionais e uma bolsa para ajudar no dia a dia. E, para isso, exigem que treinemos apenas com o técnico da seleção. Ofereceram um apartamento em São Caetano que fica de frente para a pista e bem equipado.

JP – Qual o prazo para você dar essa resposta?
SCO –
Tenho até janeiro [de 2013] para começar esse novo projeto.

JP – E o que você avalia para responder sim ou não?
SCO –
Tudo pode melhorar ou tudo pode acabar. Porque é adaptação de pista, de clima... Tem também a estrutura familiar, envolve muitas coisas que a gente tem que parar e pensar. É um momento muito bom? É. É um resultado excelente que eu posso conseguir? Não sei. Porque vai muito da adaptação do atleta com o técnico. Você pode ter o melhor ao seu lado. Mas se o atleta não tiver aquela comunicação e interpretar o que o técnico está passando, não resolve nada.

JP – Conversou com alguém da sua família? O que te falaram?
SCO –
Minha família me dá muito apoio. Eles sabem que sou meio ´cabeça-dura´. Sabem o que estou fazendo e sempre ponho meus pés em solo firme. Me apoiam em tudo o que eu faço. Eles me disseram o seguinte: o que você decidir estamos do seu lado torcendo por você.

JP – Em relação ao futuro, quais os seus objetivos? É a Paralimpíada do RJ em 2016?
SCO –
Espero para este ano disputar mais uma etapa [Circuito Caixa]. Pretendo quebrar meu recorde brasileiro e melhorar minhas marcas. Dependendo desta competição, posso ser convocada para o Mundial ano que vem. Pretendo correr o Mundial e muitas outras competições fora do Brasil. Não vou esperar nem convocação. Se puder me inscrever, quero participar para quando chegar o Rio 2016 eu ter muita experiência internacional.

JP – Você tem apenas 5% de visão. O atletismo ou o esporte em si mudou a sua vida?
SCO –
Me mudou completamente. Antes de eu praticar o atletismo eu era uma pessoa completamente depressiva. Escondia a minha deficiência e com isso sofria muito preconceito. Hoje, não. Isso me incentiva até. Porque eu vejo as pessoas que têm mais possibilidades, capacidades do que eu, que enxergam e que tem tudo para vencer na vida. Hoje, infelizmente, não chegaram a lugar nenhum. Vi que mesmo com a minha dificuldade, eu consegui representar o Brasil, milhões de brasileiros lá fora e isso me orgulha bastante. Eu sinto isso. Não querendo falar bem de mim, mas chegar aonde eu cheguei foi muito difícil. Passei por muitas dificuldades. Pensei em parar, por condições financeiras. Tinha dificuldade em tudo. O treinador às vezes passava técnicas para mim e eu demorava para ‘pegar’ e isso favorecia outras pessoas. Mas eu nunca desanimei. Sempre disse: eu quero, quero e vou atrás até conseguir. Hoje tenho até o patrocínio da Unimed [plano de saúde] e do Cozinha Caipira [restaurante].

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