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ODONTOLOGIA

Riscos do aparelho ortodôntico

Dentista fala de cuidados que determinam o bom resultado no uso de aparelhos

17 ABR 2017 - 11h:15Por Kelly Martins

O Brasil é um dos países com o maior número de ortodontistas por habitante no mundo e onde o uso de aparelhos ortodônticos, felizmente, se popularizou. E, hoje, todos podem se beneficiar com uma correção dentária. De acordo com pesquisas científicas, o bom alinhamento e posicionamento dos dentes são essenciais para a saúde bucal, função mastigatória, autoestima e até inclusão social. Porém, como alerta a dentista Maria Fernanda Martins-Ortiz Posso, mestre em Ortodontia e doutora em Patologia Bucal, embora o uso de aparelhos ortodônticos seja tão comum não se trata simplesmente de uma opção estética para alinhar dentes. Como todo procedimento médico-odontológico, envolve riscos e cuidados.


 Ela explica que o principal risco durante o tratamento ortodôntico é a  reabsorção das raízes dos dentes, a reabsorção radicular ou dentária. “Como todo tratamento médico ou odontológico, movimentar dentes significa estimular células a desempenhar uma determinada função, como modificar a forma do osso e consequentemente a posição dos dentes, por exemplo. Assim como em qualquer terapêutica, os estímulos devem ser adequados para cada indivíduo”, pontua.


As forças ortodônticas aplicadas pelo aparelho devem ser bem planejadas, segundo Maria Fernanda, personalizadas para cada paciente, com intuito de evitar efeitos perigosos, como a reabsorção das raízes dos dentes. Isso porque a raiz do dente atua de modo semelhante à raiz de uma árvore. “Se a árvore perde suas raízes a sua inserção no solo pode ficar comprometida e esta pode vir a ser arrancada com o passar do tempo. Do mesmo modo a raiz do dente serve para garantir a sua implantação no osso e na boca. Se um tratamento ortodôntico mal executado reduz o comprimento da raiz reabsorvendo-a, encurtando-a, sua implantação no osso pode ficar comprometida ao longo da vida”, ressalta, e diz haver possibilidade de  perder dentes por reabsorção da raiz decorrente de uma movimentação ortodôntica mal planejada. 


Revista SE7E – Doutora, como ocorre a reabsorção da raiz durante a movimentação de um dente?
Maria Fernanda - O dente está inserido no osso por meio das raízes e entre eles existe um tecido que pode ser comparado a uma “meia” ao redor dos dentes, separando a raiz do osso. Esse tecido se chama “ligamento periodontal” e tem a espessura de uma folha de papel, 0,25mm. Ao colocarmos uma força sobre o dente estimulamos as células desse ligamento e osso para modificarmos a forma óssea e, consequentemente, a posição dos dentes. Quando realizado adequadamente, o tratamento ortodôntico muda a posição dos dentes sem que a força imprimida pelo aparelho gere sobrecarga ou morte das células que recobrem a raiz e assim o osso muda a sua forma e as raízes dos dentes permanecem intactas. Esse é o objetivo do tratamento ortodôntico: movimentar os dentes através do osso sem danificar as raízes.
Se, ao ativar o aparelho, a força concentrada no ápice do dente for demasiada para o ligamento periodontal, algumas áreas podem sofrer necrose, ou seja, algumas células podem morrer. As células que recobrem a raiz, chamadas cementoblastos, são as responsáveis pela integridade da raiz do dente. É importante que o ortodontista conheça estas células e o funcionamento na biologia do ligamento periodontal para aplicar a força sobre os dentes, evitando provocar necrose ou morte dos cementoblastos, que protegem os dentes da reabsorção. 


Além disso, o profissional deve conhecer quais formas de dente e osso têm maior risco de reabsorção de raízes. Por exemplo: raízes mais delicadas, finas e pontiagudas apresentam maior risco de concentração de força ortodôntica no ápice enquanto as mais arredondadas e robustas distribuem melhor a força do aparelho ao longo de uma superfície maior. Assim, o risco de morte de cementoblastos diminui consideravelmente. Uma vez diagnosticando e observando todos os fatores de prevenção, o profissional consciente tomará as medidas e cuidados necessários para evitar estes efeitos indesejáveis de reabsorção das raízes, reduzindo-as ao máximo.


Podem ocorrer outros problemas em decorrência do uso de aparelhos ortodônticos?
O profissional deve alertar e orientar os pacientes quanto ao risco maior de cáries, gengivite, sangramentos e outras doenças periodontais que podem ocorrem quando não se higieniza adequadamente o aparelho ortodôntico. O aparelho em si não provoca cáries ou doenças, mas é um dispositivo que retêm muito mais resíduos e dificulta a limpeza dos dentes. Funciona como se fosse um “varal”, tudo que se passa pela boca fica pendurado nele. Os cuidados com a higiene bucal, escovação e utilização de fio dental, devem ser redobrados para que não ocorram cáries e outros problemas de saúde bucal resultantes do acúmulo de placa dentobacteriana decorrente do excesso de resíduos da dieta alimentar.


Como devemos escolher um ortodontista?
Ao contrário do que se imagina, os profissionais da saúde se alegram muito quando questionados sobre a própria formação. Não tenha receio de perguntar ao dentista, na primeira consulta, se ele é especialista. Será um risco para os seus dentes se o profissional escolhido não tiver curso de especialização em ortodontia. Antigamente todo cirurgião-dentista que se propusesse a fazer ortodontia podia colocar “ortodontia” em sua placa de fachada. Atualmente, o Conselho Federal de Odontologia determinou que somente os especialistas podem usar o termo em consultórios ou clínicas.


As sequelas de um tratamento ortodôntico mal realizado podem ser catastróficas para a saúde bucal, comprometendo a implantação e comprimento das raízes dentárias, gerando exposições radiculares, sensibilidade a gelado, doces e outros problemas que se acumulam em um efeito cascata ao longo da vida. Não tenha receio de pesquisar o quanto o profissional responsável pelo seu tratamento investiu em conhecimento antes de colocar seus dentes sob sua responsabilidade. Fica a dica.


Doutora, e por que do seu interesse específico em reabsorções dentárias?
“No meu mestrado em ortodontia, na Faculdade de Odontologia de Bauru (USP), tive o privilégio de aprender sobre biologia da movimentação ortodôntica e reabsorções radiculares com meu avô e grande professor, doutor Décio Rodrigues Martins, fundador da disciplina de Ortodontia da Faculdade de Odontologia de Bauru e do Centrinho, a respeito destes temas que lhe eram prediletos. Depois, no doutorado em Patologia Bucal tive a oportunidade de me aprofundar no assunto, inclusive, produzindo literatura a respeito, artigos e capítulos de livro, apresentando conferências nacionais e internacionais. Movimentar dentes é minha paixão.” 

 

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