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Um tabuleiro de xadrez

Planejamento da cidade foi pensado como foi de Paris, com boulevares para a ligação de todos os pontos

4 JUL 2018 - 14h:17Por Valdecir Cremon

Uma pessoa que caminhe, hoje, pelas ruas e avenidas de Três Lagoas certamente será bem pouco levada a pensar, ou a saber, que o traçado de ruas e avenidas da área central da cidade, que mais parece um tabuleiro de xadrez, foi planejado com base em uma experiência realizada muitos anos antes da criação do município, do outro lado do mundo, por um advogado com sobrenome alemão, que foi prefeito de Paris e reconhecido mundialmente como urbanista. O planejamento urbanístico, executado pelo engenheiro ferroviário Oscar Guimarães, na década de 1910, foi inspirado no trabalho de George-Eugène Haussmann.

E quem é esse personagem na história da cidade? Quase nada. Seu nome não aparece nas inúmeras publicações sobre o surgimento e desenvolvimento da cidade. Nem nome de rua é. Mas, reconhecido como o administrador que “reformou” a capital francesa no século anterior ao do surgimento de Três Lagoas, não pode ficar esquecido.

No mundo urbanístico, o “Plano Haussmann” é como bússola. Planejadores de centros urbanos não descartam prosseguir com ideias do administrador que “destruiu e reconstruiu” Paris – a mando do imperador Napoleão 3º - para acabar com a fedentina de esgoto que corria pelas sarjetas e para destravar o tráfego, o trânsito de pessoas e o desenvolvimento da capital, como citam publicações da BBC, textos de Réné Héron de Villefosse, historiador europeu de grande respeito, no século 19, e Colin Jones em “Biografia de uma cidade” (1989, Cia das Letras):

“Ninguém como Haussmann mudou inteiramente a face de uma cidade como durante sua longa administração, servindo como modelo e inspiração para os que mais tarde reformaram tanto Buenos Aires (Torquato de Alvear), o Rio de Janeiro (Pereira Passos), como Nova York (Robert Moses).”

O formato de tabuleiro de Três Lagoas é semelhante ao traçado parisiense, em que grandes boulevares levam a todos os lugares, com ligações amplas e diretas, privilegiando a arborização. É, especificamente, o complexo das avenidas que receberam nomes de figuras e personagens da cidade, como João Carrato, Rosário Congro, Antônio Trajano – o fundador –, Capitão Olintho Mancini e Filinto Müller, originalmente. Depois, Eloy Chaves e Clodoaldo Garcia, dentro da ideia que Oscar Guimarães formou com base nos estudos de Haussmann.

A expansão da cidade, que ocorreu de maneira rápida e assustadora antes mesmo da propalada “era industrial”, impediu que os planos de Oscar Guimarães pudessem ser seguidos na íntegra. Muita coisa fugiu ao planejamento original em termos urbanísticos. Mesmo assim, e após a abertura da avenida-rodovia Ranuplho Marques Leal – trecho urbano da BR-262 -, a cidade manteve crescimento ordenado, com ruas que ligam pontos distantes em linha reta, com paralelas que distribuem a densidade populacional e ligações que permitem bom fluxo do trânsito. A avenida Ponta Porã, por exemplo, que atravessa toda o extremo Leste do município urbanizado, é exemplo disso.

Mas, não foi apenas pela iniciativa de Oscar Guimarães que a cidade tem o modelo que é hoje. Antônio Trajano teve atuação urbanística privilegiada e a atuação da Companhia Machado de Melo também. Justino Rangel de França, funcionário da Construtora Machado de Melo & Cia, demarcou o que se chamava de “sítio urbano”. A construção da hidrelétrica Engenheiro Sousa Dias gerou a urbanização do Leste e turbinou o crescimento ao Sul da cidade – onde o tabuleiro perdeu algumas formas.

Leia trecho extraído do Plano Diretor de Três Lagoas, de 2006:

“Devido à central importância da ferrovia na criação de Três Lagoas, Oscar Guimarães fez da mesma um referencial ao desenhar a cidade. Assim, ruas e avenidas foram planejadas em relação à estação ferroviária em vez da Lagoa Maior, por exemplo. A área que foi priorizada por Oscar Guimarães e que faz parte de seus planos originais, o centro da cidade, apresenta linhas retas, sendo ruas e avenidas, ou paralelas à ferrovia, ou perpendiculares a ela. Tal simetria e racionalidade permitem um deslocamento facilitado no território urbano, uma vez que de qualquer ponto se pode chegar a qualquer outro por diversas combinações de caminhos, em vez de por vias principais. As avenidas (boulevares), portanto, apresentam-se mais como vias-expressas e como elementos embelezadores que como reais necessidades.

Outros elementos característicos dos projetos de Oscar Guimarães são a falta de vias diagonais - que se fazem presentes somente na parte mais velha da cidade, ao sul da Lagoa Maior-, e uma matemática simetria e constância em se tratando das medidas de cada quarteirão do traçado urbano, de exatos 100m por 100m cada, ou seja, 10000 m² no total.

As avenidas foram desenhadas no estilo dos boulevares franceses, com espaçosos jardins entre as duas vias de tráfego. A primeira avenida, que nasce defronte à estação ferroviária, foi batizada Antônio Trajano, em homenagem ao fundador de Três Lagoas. Nessa mesma avenida, o próprio Antônio Trajano dos Santos construiu a Igreja Santo Antônio, em homenagem a seu santo de devoção. Do outro lado da avenida, em frente à igreja, foi erguida a Praça da Bandeira. Também foram criadas duas outras avenidas paralelas à avenida Antônio Trajano, uma de cada lado, e, portanto, perpendiculares às linhas do trem, e outras duas paralelas à ferrovia, uma acompanhado o comprimento da mesma e outra mais ao norte, a avenida Capitão Olinto Mancini, que termina na Lagoa Maior.

O projeto de Oscar Guimarães para Três Lagoas encaixa-se no modelo clássico de planejamento urbano, assemelhando-se os conjutos de quarteirões a tabuleiros de xadrez, contornados e ligados entre si por arborizados boulevares”.

OLHO 1

George-Eugène Haussmann foi prefeito de Paris, de junho de 1853 a fevereiro de 1870. Embora fosse advogado, seu maior legado foi o urbanístico

OLHO 2

Oscar Guimarães baseou-se nos estudos de Haussmann para definir o traçado central de Três Lagoas, com as grandes avenidas que ligam a todos os pontos cardeais

OLHO 3

A construção da hidrelétrica e a abertura da avenida-rodovia Ranulpho Marques Leal conduziram o desenvolvimento da cidade ao Sul e ao Leste, fora do projeto original, que previa expansão ao Norte

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