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A próxima bomba

22 JAN 2009 - 06h:00Por Redação

No canal GNT foi ao ar algum tempo atrás um documentário sobre as crianças israelenses e palestinas, mostrando o ódio que aprendem a nutrir entre si desde que nascem. Depois de uma extensa negociação, no momento mais dramático, o jornalista reúne numa mesma sala os dois grupos inimigos. O clima é pesadíssimo. A desconfiança, o ódio e o medo impregnam o ambiente.
São crianças normais, bonitas e divertidas. Os olhares são curiosos, mas naquele instante elas só são crianças na forma, nas feições. A expressão dos olhares não deixa dúvidas: o sentimento é de medo e ódio ao inimigo.
Posso entender o medo no olhar de uma criança. Mas não entendo o ódio.
Eu também era criança quando comecei a acompanhar a questão Israel x Palestina. E como minha fonte de informação primária é a imprensa, desconfio. Cada um conta a história com as cores que lhe interessam e neste caso recente dos ataques israelenses à faixa de Gaza, a grande arma é mesmo a imprensa. Mais propriamente: as fotografias. Principalmente as fotografias das crianças. Não existe argumento que justifique uma imagem de crianças mortas, cena capaz de destruir nossa capacidade de discutir racionalmente as circunstâncias daquelas mortes.
Crianças mortas são uma ofensa à humanidade. Ponto. Não interessam as razões. Elas estão mortas e isso é inaceitável.
Imagens têm uma força genuína que muda a história. O general vietnamita dando um tiro na cabeça do prisioneiro algemado. A menina correndo nua com o corpo queimado pelo Napalm. O monge imolando-se em praça pública... Foram imagens fortes que mudaram o destino da guerra do Vietnan, por exemplo.
Mas imagens - quando na mídia - são mais que a captura de um momento. São editoriais. Opiniões emitidas por quem tem um lado.
Por isso desconfio. Desconfio do enquadramento. Da iluminação. Do vermelho do sangue. Do choro da mãe. Dos olhos abertos da criança morta.
Do posicionamento da foto na página. Da sequência com que são publicadas. O terror da morte está lá, é inegável e indigno. Mas quem é que está me passando a mensagem? Que intenção está embutida nela? Que valores estão presentes ou ausentes? Se eu fosse palestino, como reagiria a ela? E se eu fosse israelense? Em que contexto a imagem foi obtida? Que reação pretendem que eu tenha diante dela? Indignação? Contra quem?
Estamos vivendo a guerra da propaganda, que extrapola o campo de batalha para tomar conta das televisões, jornais e revistas do mundo todo.
Sempre foi assim, mas agora está mais rápido. Mais cru. Mais tendencioso. E com a internet, então, mais manipulável.
E não interessa se somos pró-israelenses ou pró-palestinos. Devemos ter o cuidado de ouvir todas as opiniões, conhecer não só o contexto histórico, mas principalmente as idéias, ideologias e valores de quem está nos transmitindo a informação. Sobre quem está tentando nos convencer acerca do certo ou do errado.
Crianças mortas serão sempre um erro. Concluir sobre as responsabilidades é muito mais complicado.E então acontece um momento mágico naquele documentário do GNT.
O jornalista pergunta para as crianças sobre o que elas mais gostam e a resposta é imediata e unânime entre palestinos e israelenses: futebol.
E quando ele pergunta para quem elas torcem, abrem-se sorrisos e os olhares tornam-se cúmplices: Brasil.
O clima de horror desaparece. O ódio transforma-se em sorrisos. Fica a paz, a satisfação. O futebol brasileiro, naquele momento, torna-se mais importante que a guerra. E as crianças esquecem as diferenças, quebram as barreiras e transformam-se naquilo que realmente são: crianças.
Pelo menos até a próxima bomba.

Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista

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