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"Brasilha"

9 DEZ 2008 - 06h:00Por Redação

Brasília é uma ilha de políticos e funcionários públicos cercada de lobistas por todos os lados. Por isso, como é dito desde a infeliz idéia de isolar a capital federal no Planalto Central, adquiriu um modus operandi calcado nos defeitos do país mas refinado e turbinado pelo novo homus brasiliensis. Desenvolto entre seus pares, ele age dentro de uma lógica própria, natural para ele mas chocante para o resto do Brasil que o sustenta e, maldita ignorância, o elege.
Veja esse exemplo:
Apesar da crise brutal, da escassez de crédito que significa escassez de recursos e das perspectivas econômicas sombrias, o Congresso Nacional, impávido colosso, aprovou a medida provisória 440 do governo Lula que concede benefícios salariais a 91.308 servidores públicos ao custo de R$ 1,9 bilhão neste ano, R$ 4,7 bilhões em 2009, R$ 6,6 bilhões em 2010 e R$ 7,2 bilhões em 2011.
Apesar da crise brutal, a votação final da MP 440 na Câmara de Deputados foi simbólica, repito, simbólica, e teve apoio de todos os partidos da oposição, repito, de todos os partidos da oposição: em Brasília, aumento para funcionários públicos não se discute, se aprova!
E vem mais por aí: outra MP, a 441, beneficia 380 mil servidores, mais R$ 1,6 bilhão pesando na nossa carga tributária.
O que é consenso na capital federal não faz sentido algum fora de Brasília. A agressão ao bom senso é gritante. O governo e seu cúmplice legislativo dão aumentos aos seus funcionários apesar do previsível recuo da arrecadação. Seria como uma empresa aumentar generosamente os salários dos seus empregados mesmo esperando receita menor, como se Papai Noel existisse.
Desde 2003, ano um da era Lula, o número de servidores federais (ativos, inativos e pensionistas) subiu 12,9%, para 2,10 milhões. As estatais contrataram com mais vontade ainda: o aumento foi de 15,2% até 2007, de 381.911 para 439.802.
Como revelou Leandra Peres na Folha Dinheiro deste domingo, no grupo das companhias que registraram os dez maiores prejuízos entre as estatais em 2007 há pelo menos cinco que aumentaram o número de funcionários, apesar das fortes perdas, sempre na lógica particular da "Brasilha".
Desde 2002, o número de servidores federais (ativos, inativos e pensionistas) subiu 13,5%, indo de 1,85 milhão para 2,10 milhões.
Enquanto isso, os gastos em infra-estrutura necessários para destravar o resto do Brasil, o produtivo, não saem do papel pela ineficácia dos governos e também pelo complexo processo jurídico-burocrático exigido para lançar de fato as obras. Complexidade advinda da tradicional e desembestada corrupção nos contratos públicos. Para contê-la surgiram órgãos fiscalizadores e exigências draconianas que muitas vezes inviabilizam ou atrasam mortalmente essas obras essenciais.
Por isso, o PAC mais premente talvez seja um Plano AntiCorrupção, não o empacado Programa de Aceleração do Crescimento. Mas você não vai ouvir nenhuma liderança política nacional defendê-lo apesar das evidências: a pesquisa anual da ONG chilena Latinobarômetro na América Latina mostra que o Brasil foi o país onde a maior taxa da população (53%) disse ter tomado conhecimento de um "ato de corrupção" nos últimos meses, contra 15% na média da América Latina.
E de nada adianta tomar conhecimento de atos corruptos, já que os julgamentos desses supostos atos levam anos a serem julgados, quando o são. Enquanto isso... alguns dirigentes políticos acusados de crimes graves, ainda sem julgamento, claro, são indicados a cargos importantes apesar das acusações.
O deputado João Paulo Cunha (PT-SP) ganhou a relatoria da medida provisória que permite bancos oficiais comprarem outros em dificuldade, apesar de ser réu no Supremo Tribunal Federal no caso do mensalão. O deputado Sandro Mabel (PR-GO) é o relator da importantíssima reforma tributária apesar de responde a duas ações penais no STF nas quais é acusado de fraudes fiscais em suas empresas, inclusive apropriação ilegal de impostos, segundo documentos da Receita Federal.
Ambos os deputados negam peremptoriamente as acusações.
Aliás, essa é outra característica do homus brasiliensis: negar o que o resto do Brasil enxerga. Ou Brasília vira o Brasil ou o Brasil vai virando Brasília.

Sérgio Malbergier é editor de Economia

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