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Deficiências

28 JAN 2009 - 06h:00Por Redação

Segundo informação mais recente fornecida pela Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e Emprego, 1% dos empregos formais, ou o que corresponde a 348 mil postos, é ocupado por portadores de algum tipo de deficiência.
Pensava inicialmente em focalizar os deficientes físicos, mas acabei ampliando a perspectiva para englobar outros gêneros, uma vez que a deficiência é mais comum do que se imagina, embora não se sofram os efeitos com a mesma intensidade de um caso para outro. Refiro-me a dificuldades que aparecem no relacionamento, na acessibilidade em estabelecimentos e meios de transporte, na obtenção de empregos, na necessidade de contar com o apoio da família e de outrem para sobreviver.
Esta redação baseia-se em depoimentos textuais de pessoas que têm algum tipo de deficiência. Acreditei que esta seria uma manera propícia para aproximar-me de suas necessidades e sentimentos do que se ruminasse teorias que falam sobre o problema dentro de um idealismo romântico.
Concluo antes de introduzir o tema, pois achamos que sofremos até vermos que podem existir situações piores. Ademais, os danos vão além do aparente na deficiência, por exemplo, um tetraplégico tem dificuldade no funcionamento dos órgãos.
Assaltou-me, antes mesmo de redatar sobre o tema, um sentimento de vulnerabilidade que me fez questionar por que nos queixamos de ligeiros contratempos enquanto há gente sorrindo sem poder enxergar ou caminhar. Assim me recordo de um grupo de visitas a pessoas enfermas e deficientes, de que tive o privilégio de participar algumas vezes e onde havia, entre outras, uma senhora em coma e um homem com transplante de bacia limitado a ficar deitado quase o tempo todo.
Não tento sugerir uma solução para todas as deficiências, que diferem em gênero e intensidade, senão maneiras de incluir estes portadores de necessidades especiais num convívio harmonioso, sadio e sem o afastamento das relações. Estas práticas envolvem o estímulo a grupos institucionais que lhes dêem atenção, a construção de uma vialidade adequada (como rampas para cadeirantes) e políticas de incentivo à admissão escolar e contratação profissional de deficientes.
Permitir-nos, não importa o esforço que demande, compreender as diferentes necessidades desse segmento da população é um passo na direção da extinção dos preconceitos, inclusive o de que a deficiência incita mais o sentimento de pena que de solidariedade nos demais. Se o preconceito se reduzisse a uma curiosidade sobre o incomum e a situação do deficiente, já seria um princípio. Porém, o rechaço e a exclusão é o seu lado obscuro.
Uma vizinha vinha prometendo-me, havia dois meses, chamar-me para uma visita a sua filha Gina, que sofreu um acidente ao cair da escada aos trinta e três anos e teve quase o corpo inteiro paralisado. Alegava-me a senhora, quando nos encontrávamos no corredor do edifício, que logo me avisaria sobre o momento adequado porque Gina estava naquela semana com problemas de imunidade e comentou que seu marido tinha o receio de que o visitante, qualquer que fosse, ficasse com dó dos pais e da situação.
Até que um dia finalmente esta senhora me chamou quando eu menos esperava, desci as escadas – seu apartamento ficava logo no andar de baixo – e entrei no recinto. Encontrei, para inveja dos comuns, uma pessoa sorridente e um ambiente de carinho. A senhora disse que seu neto, algumas vezes, deitava no colo de Gina e murmurava: “Te amo muito!” e aquela completava com atenção, dedicação e felicidade. Borram-se as fronteiras entre o físico e o imaterial.
Muito pode ser feito pelo governo, organismos não-governamentais, empresas e outros atores sociais para ressocializar pessoas que, por alguma deficiência, tiveram a inserção prejudicada e sofrem algum tipo de preconceito. Formam-se grupos de apoio, como os de restrições auditivas, visuais, motoras e mentais. Assim se concentram estudos e práticas voltados a eles. Finalmente, admoesto que a deficiência física ou mental de alguém não se converta em deficiência de caráter de outrem.

Bruno Peron Loureiro é analista de desenvolvimento e relações internacionais

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