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Não é justo, professor!

20 DEZ 2008 - 06h:00Por Redação

Frequentei o antigo primário numa época em que prevaleciam aforismos que hoje soam extemporâneos. Em bom latim – que ainda se ensinava –, um deles recomendava: magister dixit, causa finita, ou seja, “o mestre falou, assunto encerrado”.
Amiúde, minha mãe atuava como mediadora, ante a norma rígida do meu pai: “se apanhar no colégio, apanha duas vezes”.
Evidentemente, injustiças eram cometidas. Porém, resta-me o sentimento de que pouco sofríamos com a palmatória aplicada, nem sempre merecida. Talvez por ser cultural – imperava a “paudagogia” – e até porque levávamos palmadas também em casa. Ao recordar aqueles tempos, podemos dizer em tom de blague que prevaleciam não os métodos de Piaget e sim de Pinochet.
O que temos hoje? Estamos vivenciando quase o outro extremo, quando sabemos que a virtude está no meio. O mestre mandou para fora da sala? Verbalizou palavras inadequadas? Elevou a voz, deu mais atenção a alguém, individualizou uma reprimenda em público, altercou por causa das conversas paralelas? Nota baixa na correção da prova discursiva? A resposta do discípulo é a mais previsível, vem automatizada da sua boca: “É uma injustiça, professor!”.
E, não poucas vezes, em defesa intransigente dos filhos, insurgem-se os pais. A participação destes é louvável. No entanto, os pais, ao lamberem a cria, devem ter o discernimento em não impedir que tais conflitos sejam ótimos exercícios para o desenvolvimento da autonomia.
A escola, em geral, é dotada de bons profissionais e, na instância professor x aluno ou aluno x aluno, administra bem as versões antagônicas. Ademais, é salutar que todo o colégio seja – além de outras relevantes atribuições – o templo da argumentação, do embate, enfim, da convivência com o diverso e com o adverso.
A direção ou equipe pedagógica ouve, aconselha, promove diálogo entre as partes e aguarda o decurso dos dias, pois o tempo se encarrega dos ajustes. Atua como bombeiro para um bom rescaldo e para que a fogueira gere mais luz e menos calor.
O colégio, algumas vezes, erra sim ao determinar a medida da punição. Os conflitos fazem parte da rotina escolar e demandam uma bela lição: desde quando a vida profissional e familiar é sempre justa? É no ambiente de convivência com os colegas e irmãos que a criança e o adolescente aprendem a ser tolerantes, a conviver com os erros, com os defeitos, com as pequenas injustiças e a respeitar a hierarquia. São requisitos indispensáveis para um futuro que os aguarda com suas fortes exigências.
Sim, a escola é uma metáfora da vida. Esta nem sempre é justa, tampouco perfeita. Penso que se a escola perfeita existisse, ipso facto, estaria cometendo a maior das falhas. Sigmund Freud reconhece que “ao educar o erro é inevitável”.
Para concluir, recordo os principais excertos de um discurso de Bill Gates a um grupo de jovens formandos: “Se você acha rude o seu professor, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você. O mundo não está preocupado com a sua auto- estima. O mundo espera que você faça alguma coisa bastante útil por ele, antes de qualquer reconhecimento”.

Jacir J. Venturi é diretor de escola e autor de livros e foi professor da UFPR e PUCPR

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