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O Olhar do Outro

5 FEV 2009 - 06h:00Por Redação

Não é à toa que criança pequena não desgruda da mãe: leva um certo tempo até a criança perceber que o corpo dela e o da mãe não são mais o mesmo.  O ser humano e o ser sociável por vezes se esquecem que são o mesmo animal, e dependem do outro para nascer, crescer e viver com qualidade. É o olhar do outro que legitima nossa existência, e ser notado é essencial para perceber-se existente, e só assim, participante atuante de qualquer contexto que envolva seres humanos.
A grande dificuldade é quando esse mesmo olhar que nos confirma nossa existência se torna tirano quanto à nossa aparência: o olhar de superfície.  Aparência vai muito além de guarda-roupa; envolve simpatia, demonstrações de boa vizinhança, placidez e amabilidade com aqueles que nos cercam. Num esquema industrial de sociedade, é complicado visualizar que se arquitetem formatos artificiais e mecanizados da nossa aparência, seja pra economizar tempo ou para evitar dores de cabeça. Surge aí o sorriso amarelo, a balançadinha de cabeça ao encontrar um conhecido à distância, o papo de elevador que varia entre dia-a-dia e mudanças no tempo, e outras demonstrações pouco humanas de humanismo.
Assim, a aparência se torna para muitos um fardo que encanta e confunde, já que o olhar do outro e o próprio olhar passam a enxergar pessoas completamente diferentes.  Esse fenômeno parte do princípio de que saímos de casa imperfeitos, na grande tentativa de que pequenas falhas na nossa percepção passem despercebidas pelo tribunal ocular alheio. Não existe proteção contra mau-olhado que defenda mau-olhador. O mesmo olhar que procura, esconde.
Não existe nada mais fácil de desmascarar do que o “olá” mecânico, a insatisfação de encontrar com alguém às vezes inesperado,  ou o grande medo de dar aparência do seu direito humano de não estar à vontade. Ter modos não significa ser educado, e vice-versa. Aquele que tem modos nada mais sabe do que a cartilha completa do “bom-comportamento” na presença do outro, já aquele que tem educação, consegue apreender a faceta humana do mundo, e sabendo disso, agir com cortesia. A vulnerabilidade à opinião do outro no fim das contas é um termômetro de simples ajuste.
Da próxima vez que cismar que recebeu um olhar torto, vale lembrar: o olhar do outro é fundamental para nossa existência, mas na grande maioria das vezes... não vai além do próprio umbigo.


Paulo José Maia é formado em Comunicação Social pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP-SP)

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