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O silêncio dos partidos

25 ABR 2013 - 07h:25Por Redação

O PT não nasceu em São Bernardo. Nasceu em Criciúma. Pela fresta que alguns poucos ousaram abrir na densa cortina de ferro dos anos de chumbo, trazendo um sopro de liberdade. Era o distante ano de 1978, o líder estudantil e jovem deputado federal do MDB de Santa Catarina, Walmor de Lucca, promoveu, em Criciúma, sua terra, um seminário trabalhista nacional com os grupos políticos de esquerda que se reorganizavam, lutando pela anistia. Entre os participantes, as mais destacadas lideranças sindicais e da oposição do país naquele momento. Do movimento operário do ABC Paulista veio o Lula e outros líderes sindicais de São Paulo inteiro, entre eles, Jacó Bittar, de Campinas. Dos bancários do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra. Sindicalistas e ativistas de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Bahia. A esquerda brasileira estava em Criciúma, partilhando a democracia que não existia. 

Desde o primeiro instante, um tema polarizou os debates: As lideranças sindicais deveriam ou não entrar para partidos? Lula era totalmente contra. Defendia que os sindicatos eram mais fortes que os partidos e que a política descaracterizava o movimento sindical e desmoralizava os trabalhadores. Outros defendiam a construção de um novo partido que se juntaria a Brizola, que ainda estava no exílio. Lula permanecia contra. Os sindicalistas menores tomaram o centro do debate, dizendo que a luta deles, sem partido, sem liderança política ou espaço na imprensa, era uma causa perdida. Eram trabalhadores pedindo ajuda. Lula entendeu o recado, passou, ao fim do encontro, apoiar a ideia. Sabia que naquele Brasil ditatorial, com a existência de mais de 80% de sindicatos menores, precisava de um braço político que lhes dessem abrigo e um pouco de visibilidade. 

Poucos anos depois, em 1980, aqueles mesmos líderes, reunidos em Santa Catarina e espalhados Brasil afora, criaram um partido só para eles, com o nome deles, era o Partido dos Trabalhadores, fundado no dia 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion, em São Paulo. Pelos entraves burocráticos impostos pelo regime ditatorial, o partido só foi oficialmente reconhecido como partido político pelo Tribunal Superior de Justiça Eleitoral no dia 11 de fevereiro de 1982, quatro anos depois da chama ter sido acessa. 

Nas redações dos jornais, jornalistas espalhados Brasil afora burlavam a censura, se expondo, e enxertavam aqui e ali matérias sobre o movimento que se iniciava, ora falando dos trabalhadores, ora de Lula, dos sindicatos, e o movimento crescendo, se engendrando na cortina de ferro que ruía. E assim cresceu o Partido dos Trabalhadores. Assim chegou, conheceu e passou a exercer o poder, por dentro.  

Agora, anos e anos depois, no governo exercido pelo partido que surgiu dos sonhos dos trabalhadores e das pequenas lideranças sociais, constata-se a criação de entraves contra a criação de novos partidos, como que se a democracia fosse um privilégio apenas dos eleitos. Na Câmara tramita, de forma célere e orquestrada, o projeto de lei que aumenta de 492 mil assinaturas para 1,5 milhões de assinaturas a criação de um novo partido. Tudo isso depois que a egressa do Partido dos Trabalhadores, uma de suas fundadoras nos confins da floresta Amazônica, Marina Silva, anunciou a criação de uma nova legenda, com o nome de Rede.  
 
No Congresso Nacional, apenas os projetos de lei que interessam diretamente ao governo, ao poder central, vão para a pauta e são votados. Muitos projetos de lei são ignorados, esquecidos e banidos de suas comissões e das pautas de votação. Parece que a antecipação da corrida presidencial de 2014 fez apressar também a votação de um projeto de lei menor e que tem endereço certo: barrar a criação de novos partidos, distanciando o processo político e democrático dos movimentos sociais e sindicais. Ao que tudo indica, prefere-se o silêncio dos partidos que o barulho dos movimentos livres. 

*Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor

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