Rádios On-line

Triste dia distante

7 MAR 2013 - 07h:05Por Redação

Drummond nasceu em uma cidade de ferro. Fez dela sua poesia diária. Alquimista do tempo, transformou ferro em ouro, matéria em sentimento, sentido de tudo que move o mundo! Nossa vida ficou fria, ferro não forjado, não malhado. É preciso coragem e vontade para existir, quando viver parece apenas valer a pena. Duro é cavar o dia em busca de um poema quando a vida não quer nem ser educada... Quanto mais impessoal, menos verdade, e vamos cheios de desamor, de equívocos, enganos e frustrações maiores construindo esse triste mundo facebookiano, da espionagem consentida, da imagem forjada, da alegria montada, da felicidade de apenas um momento, tão breve, que passou. Passou, não foi no vento. 

O vento leva as coisas para o além, aí, de vez em quando, ele vem, lá do fundo, e sopra aquela saudade calada, guardada, do que nunca existiu! Dói muito. Mais que o canto do sabiá na tarde oculta dos sonhos esquecidos. Perdido, busco aqui e ali o vento que não soprou e vejo o dia pelo retrovisor. Tudo distanciando e eu indo, indo, para lá, para lá, além. Nenhuma paixão, nesta hora, me implusa, tudo foi caindo, aos poucos, pelo caminho, e eu indo, indo, até sumir na paisagem... Essa foi ficando por aqui, como uma cachoeira que cai em minha vida inteira, como um pôr de sol bordado em meu coração curupira, um luar nascendo nas dobras da história, um caminho levando para o bendito infinito. 

Na verdade, nunca quis ir-me embora. Sempre quis ficar, me enraizar, como um ipê florido nos cabelos cacheados do lindo dia. Acho mesmo que sempre estou voltando para as coisas que nunca perdi. O sorriso que não guardei, a rosa em flor que não colhi, a mulher que não beijei. Isso tudo espalhado por aí, nesse mundo de mistérios que não precisa do oculto para existir. Tem sempre uma esquina diferente na manhã que nasce no poente. Melhor a vida inocente, dessa gente que sente, aqui dentro, bem fundo, como a pena das asas de um anjo caindo dentro do coração, de leve, bem leve, silenciosamente...

*Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor

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