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20 de Janeiro - Dia do Farmacêutico

Na homenagem ao Dia do Farmacêutico, o Jornal do Povo entrevistou três profissionais da classe

20 JAN 2009 - 06h:20Por Redação

Entrevista com a Farmacêutica Luciana Braçal, responsável pela Central de Abastecimento Farmacêutico do Município

A farmacêutica Luciana Regina Braçal faz um alerta, principalmente, aos que têm o péssimo costume da auto-medicação e aos balconistas de farmácia que, por pretenso lucro, vendem remédios sem qualquer critério. “Só o farmacêutico, além do médico, tem condições de ter uma visão geral da reação e da finalidade de cada remédio”, disse ela. Luciana é coordenadora de Assistência Farmacêutica da Secretaria Municipal de Saúde. Além da coordenação e funcionamento de todas as farmácias da rede pública municipal de Saúde, não só da central de abastecimento, Luciana também coordena e é responsável pela qualidade da prestação de serviços dessa área da Secretaria Municipal de Saúde.
Em meio ao seu serviço de atendimento ao público, na farmácia do Pronto Atendimento Básico (PAB), Luciana falou ao Jornal do Povo sobre a estrutura das farmácias na rede pública de Saúde, o papel da farmacêutica e os perigos da intoxicação medicamentosa, se não forem seguidas à risca as orientações do médico e do farmacêutico. “Como profissionais, devidamente habilitados, temos como função específica prestar a autêntica assistência farmacêutica ao paciente, quando ele nos apresenta a receita médica”, resumiu Luciana Regina, a falar do seu trabalho e da sua profissão.

JP: Qual a sua função específica na Secretaria Municipal de Saúde?

Luciana: Sou coordenadora da Assistência Farmacêutica. Sou responsável por toda a área farmacêutica, não só pelo setor de remédios, mas de toda a prestação de serviços dessa área, na Central de Abastecimento de Medicamentos,  no Centro de Especialidades Médicas (CEM), Posto de Atendimento Básico (PAB), no Programa de Saúde da Família (PSF) da Vila Piloto e as farmácias das 13 Unidades Básicas de Saúde (UBS). Nosso papel, como farmacêutica, é orientar o paciente para que ele tome corretamente a medicação receitada pelo médico. Nós estamos habilitados para isso. É nosso trabalho prestar a correta e autêntica assistência farmacêutica ao paciente.

JP: Como é feito esse trabalho de orientação a quem precisa tomar determinada medicação?

Luciana: Só o farmacêutico, além do médico naturalmente, está habilitado e tem condições de ter uma visão geral da reação e da finalidade de cada medicamento. Essa é a função primordial do farmacêutico. É ele que deve explicar ao paciente tudo o que for possível sobre o medicamento receitado pelo médico para que sejam evitadas eventuais complicações e o remédio obtenha os resultados esperados. Isso quer dizer, prestar uma autêntica assistência farmacêutica ao paciente. Quando as pessoas reclamam de determinado remédio, cabe ao profissional farmacêutico indagar se o paciente seguiu corretamente a prescrição médica. O remédio não faz efeito ou pode até causar sérias intoxicações medicamentosas, se for tomado erroneamente, tomou em excesso ou, simplesmente, não tomou o medicamento certo. Existem situações também em que o medicamento reage de forma inesperada. Nessas situações, cabe também ao farmacêutico orientar o paciente, quanto o tipo de comida ou bebida que está ingerindo e também quanto ao horário da medicação, que deve ser observado. Esse é o nosso trabalho.

JP: Qual a orientação que você dá para prevenir e evitar a intoxicação medicamentosa?

Luciana: Em primeiro lugar, teríamos que acabar com o errado costume do brasileiro da auto-medicação. Esse jeitinho brasileiro tem causado sérios problemas de saúde. Além da receita médica, o paciente deve procurar a orientação do farmacêutico profissional e não somente a do atendente de farmácia, o balconista. Todos estamos sujeitos a ter intoxicação medicamentosa, mas o perigo maior é com as crianças e os idosos. Nas crianças, quando elas têm acesso a remédios sem a vigilância e controle rigoroso dos pais. Nos idosos, têm ocorrido casos em que houve a troca do medicamento, por problemas de visão ele não enxergou qual o remédio que deveria tomar e a dosagem certa. Houve casos também em que houve troca do medicamento. O marido tomou o remédio da mulher e vice-versa. Vai ver, está tomando o medicamento errado. Uma outra orientação é que o paciente siga à risca o que o médico receitou, observando dosagem e horário da medicação. Sem a devida orientação do médico ou do farmacêutico habilitado, nunca se deve substituir um medicamento por outro. Infelizmente, alguns balconistas de farmácia têm esse costume. O remédio só pode ser substituído por outro sob orientação médica ou do farmacêutico responsável.

JP: Qual a função do farmacêutico na rede pública de Saúde?

Luciana: A prefeita Simone Tebet tem valorizado a profissional de farmácia. A secretária Elenir Neves Carvalho, autoridade máxima da saúde do município é farmacêutica. Isso é muito importante. O Município tem farmacêutica formada na Central de Medicamentos, no CEM, no PSF da Vila Piloto onde são fornecidos medicamentos controlados, no PAB e no setor de laboratórios e exames clínicos. Nas farmácias das Unidades Básicas de Saúde temos atendentes, mas todas treinadas especialmente para esse trabalho. Como todos os pacientes são cadastrados no sistema, cada um tem o seu prontuário médico, que facilita o acompanhamento da medicação receitada pelo médico. Podemos dizer que em toda a rede pública de Saúde, está presente o importante papel do farmacêutico.

JP: Como funciona a Central de Abastecimento Farmacêutico da Secretaria Municipal de Saúde?

Luciana: A Central é responsável pelo fornecimento de medicamentos a todas as farmácias da Secretaria Municipal de Saúde. Todo o controle de abastecimento é feito por lá. Temos uma relação de medicamentos preconizada pelo Ministério da Saúde. Baseados nessa relação, o Estado e o Município pactuam quais os medicamentos que precisam ser adquiridos para o atendimento gratuito da população. Temos 108 diferentes itens de medicamentos pactuados pelo Ministério da Saúde, através de convênio Estado e Município. Todos esses medicamentos têm que estar, obrigatoriamente, nas prateleiras de todas as nossas farmácias. No Município, graças ao empenho da prefeita Simone Tebet, além dessa lista dos 108 medicamentos, temos mais 130 itens de remédios, que são adquiridos com recursos próprios da Prefeitura. Então, no total, temos 238 diferentes itens de medicamentos para atender à população. São esses os remédios que são receitados pelos médicos que atendem na Rede Pública da Saúde.


Entrevista com o Farmacêutico  Manoel Alves Filho “Nezinho”, que antes de exercer a profissão de farmacêutico,  já possuía experiência de 10 anos de conhecimento

O farmacêutico Manoel Alves Filho (71), mais conhecido como “Nezinho”, conta que a farmácia “de antigamente” era um verdadeiro pronto-socorro para a população. Para tudo se recorria à farmácia e se pedia a orientação do farmacêutico. “Se não dava para ser atendido pelo médico, o pessoal recorria à gente para receber orientações sobre todo o tipo de doenças e qual o remédio que deveria tomar”, disse Nezinho. “Mesmo que a gente insistisse que procurasse um médico, o pessoal insistia em querer saber a opinião da gente”, lembrou.
 “A gente era acordado durante a noite por alguém que batia na janela, pedindo socorro para fazer todo o tipo de curativo e aplicação de soro contra picada de cobra”, contou em entrevista ao Jornal do Povo. Farmacêutico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFERJ), desde 1964, é responsável pela Farmácia Santa Cristina, aberta pelo seu pai, o português Manoel Alves. Ele se orgulha de haver possuído a carteirinha de número 27 do Conselho Regional de Farmácias (CRF-MT), antes da divisão do Estado. Quando foi criado o estado de Mato Grosso do Sul, o registro no CRF-MS passou a ser o de número 76. Por 10 anos foi fiscal do CRF-MS, na regional 20, que compreende Três Lagoas e cidades da região.

JP: Quando o senhor começou a trabalhar como farmacêutico?

Nezinho: Antes de exercer a profissão de farmacêutico, eu já possuía uma experiência de 10 anos de conhecimento de medicamentos, como representante comercial do laboratório Bayer do Brasil. Quando foi aberta a Farmácia Santa Cristina, em 1964, por meu pai Manoel Mendes, eu havia terminado a faculdade de Farmácia, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFERJ), e voltei para Três Lagoas, onde comecei a trabalhar como farmacêutico.

JP: Como era a vida do farmacêutico nessa época?

Nezinho: Muita coisa mudou de lá para cá. Hoje existe um controle mais rigoroso do Conselho Regional de Farmácias e do próprio Ministério da Saúde. O nosso serviço também ficou mais restrito e menos complicado. Naquela época, os maiores problemas que tínhamos era com o perigo de infecções, quando realizávamos curativos e quando aplicávamos injeções. Não existiam agulhas e seringas descartáveis, como hoje.  Quando íamos aplicar uma injeção, tinha todo o procedimento de esterilização, fervendo as agulhas e as seringas. Tudo era difícil. Hoje, tudo é mais fácil e mais prático.

JP: É verdade que a população confiava mais no farmacêutico do que hoje?

Nezinho: Apesar da gente, como profissional, orientar as pessoas a  procurar um médico, isso nem sempre era possível. Existiam poucos médicos. Então na hora do desespero, era o farmacêutico que tinha que resolver as emergências. A farmácia virava um verdadeiro pronto-socorro. Quantas vezes fui acordado durante a noite para socorrer gente picada de cobra, que havia sofrido algum tipo de acidente ou que estava com alguma dor que não passava!... A gente fazia de tudo: aplicava soro anti-olfídico, retirava os pontos de cirurgias, fazia curativos, aplicava todo o tipo de injeções. Para tudo as pessoas pediam nossa ajuda e colaboração. Também não existiam tantas farmácias como hoje. Se não me falha a memória, eram umas quatro, naquela época. Não existia a concorrência que existe hoje. Éramos todos amigos fiéis e nos ajudávamos uns aos outros. Hoje tudo é diferente. O que manda é o interesse pelo lucro. Também não eram fabricados tantos remédios como tem hoje.

JP: Como o senhor vê o crescimento do número de farmácias na Cidade?

Nezinho: De um lado é bom, mas por outro lado é ruim. Hoje o que vale é o lucro, a rentabilidade do negócio. Antigamente, ganhávamos mais, sem precisar ser desleal uns com os outros. Houve um crescimento no ramo da indústria de fabricação de remédios. Comprávamos diretamente dos laboratórios. Hoje, são os distribuidores. Tínhamos uma Associação de Farmacêuticos e Proprietários de Farmácias, fundada na década de 1970. Ainda hoje, é a entidade que representa a nossa classe. Naquele tempo, éramos fiéis companheiros uns dos outros. Hoje, o pessoal concorda nas reuniões, mas quando sai de lá, muda facilmente de idéia. Não existe mais o compromisso com a palavra dada. O que vale agora é a concorrência, muitas vezes desleal.


Entrevista com a Farmacêutica e Bioquímica Cristiane Porto Bazé, com experiência de mais de 12 anos de atendimento em balcão

“Infelizmente, apesar da fiscalização do Conselho Regional de Farmácias de Mato Grosso do Sul (CRF-MS), ainda temos em Três Lagoas, farmácias sem a presença de um profissional habilitado, que permaneça no balcão, a serviço do cliente. Todas as farmácias têm um farmacêutico responsável, mas nem todas têm o profissional à disposição do cliente”. Esta foi a revelação da farmacêutica bioquímica e coordenadora do Laboratório do Programa Municipal DST-Aids, Cristiane Porto Bazé. Formada pela  Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), de Presidente Prudente, Cristiane possui uma vasta experiência de mais de 12 anos de farmacêutica.
Além do seu trabalho na Rede Pública de Saúde, como coordenadora e responsável pelos exames do laboratório de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e Aids, Cristiane trabalha como farmacêutica responsável, atendendo diariamente em balcão de farmácia, no período da noite. “Nunca poderei abandonar o balcão de farmácia, porque é nesse trabalho que eu mais me realizo profissionalmente, orientando as pessoas sobre o uso correto dos medicamentos”, disse ela, em entrevista ao Jornal do Povo.

JP: Como você define a sua profissão de farmacêutica?

Cristiane: Confesso que, ao ingressar na faculdade de Farmácia, eu não tinha noção da profissão que iria exercer. Com o tempo, ainda na faculdade, descobri que esta era a minha vocação. Por isso, sou grato à minha mãe e a um dos meus irmãos que me incentivaram a escolher esta minha profissão, que exerço há uns 12 anos. Apesar de ser responsável pelo laboratório do Programa Municipal DST/Aids, sinto-me realizada profissionalmente, quando trabalho no balcão de farmácia. É lá que eu exerço, na verdade, a minha profissão, quando oriento as pessoas quanto ao correto uso da medicação. Este é o meu trabalho de farmacêutica, que não se limita a pegar o remédio, receitado pelo médico, e entregá-lo ao paciente. É minha função orientá-lo quanto à dosagem, ao horário em que ele deve tomar o seu remédio. Ultimamente, nossa profissão está sendo valorizada. Temos uma profissional farmacêtica na Secretaria Municipal de Saúde, a Elenir Neves Carvalho. Além dela, as principais funções na Secretaria estão nas mãos de farmacêuticas.

JP: Quais as orientações que você dá, quando atende a um cliente de farmácia?

Cristiane: Maioria das pessoas ainda conserva o costume de procurar orientação do farmacêutico. Isso é muito bom. Somos habilitados a conhecer as fórmulas e elementos que são usados na fabricação dos remédios, portanto, é nosso dever orientar o paciente sobre o remédio que ele vai tomar. Por isso, procuro ser detalhista e prática ao mesmo tempo. Tenho o costume de escrever as orientações em uma etiqueta que eu colo na caixinha do remédio para a pessoa não esquecer. Falo da importância de se tomar a dose completa do medicamento. Muitas pessoas têm o costume de parar de tomar o remédio por conta própria, quando notam que já sararam. Isso não é assim. A dosagem tem que ser tomada por completo para evitar que a doença volte até com mais intensidade, porque não foi curada corretamente. Isto diz respeito, principalmente, às infecções. Oriento também quanto aos horários que devem ser obedecidos corretamente e sobre as reações que o medicamento poderá ocasionar no organismo e como esse transtorno poderá ser evitado ao amenizado.

JP: Como o farmacêutico consegue decifrar o que o médico escreve  manualmente nas receitas? Você já passou por problemas para decifrar alguma receita médica?

Cristiane: A gente vai aprendendo com a experiência a decifrar a letra dos médicos. Às vezes é difícil, mas trocando idéias com outros balconistas, mais experientes, a gente acaba descobrindo o nome correto do remédio. Por várias vezes, já precisei ligar pessoalmente para o médico e perguntar qual o medicamento que ele havia receitado, tal era a dificuldade em ler o que ele havia escrito. Nunca entreguei um medicamento ao paciente, sem ter a certeza que esse era o remédio receitado pelo médico. A questão da legibilidade das receitas está sendo melhorada. Já foi mais complicado.

JP: Você já passou por situações em que o paciente pede para trocar o remédio receitado por um mais barato, porque não tinha condições para pagar o que o médico receitou?

Cristiane: Com o surgimento dos remédios chamados “genéricos”, esse costume passou a ser comum. Devido à situação financeira do paciente e do alto custo dos remédios, ele sempre pergunta se existe um mais barato e que tenha os mesmos efeitos. Em primeiro lugar, procuro orientar o paciente a pedir ao seu médico se é possível receitar um outro remédio com preço mais acessível. Se não for possível consultar o médico de imediato e sabendo que existe um outro com a mesma fórmula, como farmacêutica, posso substituir determinado medicamento por outro. Isso não é errado, mas as pessoas têm que ficar atentas para saber se a pessoa tem conhecimento e é devidamente habilitada a tomar essa decisão. O perigo está na falta de consciência de alguns balconistas, graças a Deus, uma minoria, que não quer perder a venda de remédios.  

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