Rádios On-line

Biomassa gera quase 100% da energia consumida pela Fibria

Aumento da capacidade de produção de energia foi detalhado pelo Gerente de Recuperação e Utilidades da Fibria

10 ABR 2013 - 08h:39Por Arthur Freire/JP

Praticamente toda a energia consumida pela fábrica de celulose da Fibria e a indústria de papel da International Paper em Três Lagoas é produzida por biomassa nos estados sólido (cavacos de eucalipto) e líquido (licor negro). O aumento da capacidade de produção de energia a partir de fontes renováveis foi detalhado ao Jornal do Povo pelo Gerente de Recuperação e Utilidades da Fibria, Fernando Raasch Pereira, 48 anos. Natural de Vitória (ES), engenheiro mecânico com pós-graduação em Produção de Celulose e Papel pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Raasch está em Três Lagoas há cinco anos. Segundo ele, outra inovação é a aplicação de tecnologia que vai permitir à fábrica, até 2025, zerar o descarte de resíduos no processo de fabricação de celulose. Uma parte será queimada e outra será transformada em corretivo de solo, certificado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Jornal do Povo - Quais as fontes de energia usadas para o processo de fabricação de celulose no complexo da Fibria em Três Lagoas?

Fernando Raasch – A fabricação de celulose é energicamente intensiva e o processo consome energia de duas formas: a energia térmica, gerada a vapor, e a elétrica, que é utilizada para movimentar motores e outros equipamentos. A fonte básica para gerar a energia é a biomassa líquida, que na produção de celulose chamamos de licor negro, e a biomassa sólida, que é o resíduo do processamento de madeira. O vapor, antes de ser utilizado nos diversos processos, passa por dois conjuntos de turbinas e geradores que proporcionam a geração de energia elétrica. Hoje, a unidade em Três Lagoas tem entre 94% e 96% da energia básica sendo fornecida por combustível renovável.

JP - A Fibria aumentou sua capacidade de produção de energia a partir de fontes renováveis? 
Raasch – A Fibria elevou sua produção de energia excedente desde o início deste ano, após autorização da ANEEL, de 30 para 50 megawatts/hora. Isso foi possível a partir de pequenas correções, possibilitando maior aproveitamento da biomassa sólida gerada no processamento da madeira. Com isso, a Fibria sai de uma geração de 120 para aproximadamente 140 megawatts/hora. Desse total de energia, 90 megawatts/hora abastece a produção da Fibria e da International Paper e o excedente é disponibilizado no Sistema Nacional. 

JP - Quais são os ganhos de produzir e utilizar esse tipo de energia?

Raasch - A energia elétrica é um insumo de altíssimo custo, e, sendo assim, para um processo eletricamente intensivo, como é o caso do de produção de celulose, a não geração interna da energia elétrica necessária, com certeza, inviabiliza o negócio, anula sua competitividade. O ganho contextualizado fica por conta do atendimento da demanda de energia elétrica a partir de combustíveis totalmente renováveis e gerados no próprio processo de produção de celulose a partir de sua matéria-prima, a madeira.

JP – Em relação aos impactos ambientais, o que significa a utilização desse tipo de energia em comparação à utilização de outros combustíveis?

Raasch - A queima de biomassa pela própria composição físico-química proporciona uma menor emissão de poluentes atmosféricos quando comparado, por exemplo, à queima de óleo. Isso, inclusive, é considerado na questão da política de crédito de carbono. Para se ter uma noção, a utilização da biomassa como fonte geradora de energia elétrica na Fibria substitui a queima de aproximadamente sete mil carretas de óleo diesel por ano, sem contar com o processo de poluição intrínseco à produção e transporte do volume em questão. 

JP - Há quanto tempo a Fibria produz esse tipo de energia?

Raasch - A unidade da Fibria em Três Lagoas produz toda a energia que consome desde o início das operações da indústria, em 2009. A diferença é que o excedente produzido anteriormente era de 30MW/h e agora em 2013 conseguimos alcançar a produção de 50MW/h por mês. A energia gerada pela Fibria é suficiente para abastecer uma cidade de 400 mil habitantes.

JP - Caso houvesse um apagão, qual seria a dimensão dos prejuízos? 

Raasch – Não temos o risco de apagão porque, como já foi dito, a Fibria produz a energia necessária para abastecer todo seu processo de produção. A planta de Mato Grosso do Sul utiliza energia elétrica externa somente em retomada de atividade quando há parada geral dos equipamentos. 

JP – Você poderia exemplificar, fazendo um comparativo sobre quais os ganhos de produzir energia por fonte renovável?

Raasch – Isso é interessante e até simples. Imagine uma casa, com três filhos, três aparelhos de ar-condicionado, freezer, TV, secador de cabelo. O que seria se a gente não pagasse energia. Seria ótimo, não é mesmo, já que a energia do sistema elétrico convencional implicaria despesa no final do mês de R$ 400, por exemplo. Guardadas as devidas proporções, trazendo isso para dentro da indústria, seria inviável, seria impossível rodar um fábrica de celulose se ela não fosse produtora de energia. Eu diria que não seria nem questão de benefício, mas de existência. Uma fábrica de celulose consumindo hoje o que consome, não seria viável comprar energia do sistema convencional.

JP – A seu ver, desde a ativação da Fibria, em 2009, até os dias de hoje, o que avançou no setor energético.

Raasch – Se a gente falar do setor energético como um setor nacional, grandes evoluções vêm acontecendo. Podemos citar uma mudança na regulamentação na contratação de demanda que chamamos contrato de demanda sazonal ou reserva de capacidade. Tivemos agora um grande avanço, que é a possibilidade e colocarmos em nossas casas fontes de geração de energia eólica e solar e interligar no próprio sistema nacional, ou seja, passa a ter condições de gerar a própria energia. Quando não tiver como gerá-la, basta usar o sistema nacional e pagar por ela. Sem contar os avanços que estamos tendo no sistema de transmissão e na parte de geração, com a expansão das usinas hidrelétricas e termelétricas.

JP – Se a Fibria fosse concorrer no mercado energético, quanto teria que investir na geração de energia? 

Raasch – Na realidade, todo investimento é feito pensando no conjunto da fábrica. Está intrínseco ao processo de produção. O negócio da Fibria é produzir celulose e contamos com os benefícios do emprego de altas tecnologias para redução do consumo interno. O que podemos dizer, não no caso da Fibria, mas quem for investir na geração de energia terá que gastar aproximadamente US$ 700 por megawatts, esse é o valor aproximado de investimento para quem se dispuser a investir na geração. É evidente que, para a Fibria, quanto menos depender de geração externa de energia de outros sistemas menor será o custo de produção e maior será a competitividade.

JP - De tudo que se produz na fábrica de celulose, o que sobra e vai para descarte?

Raasch - As unidades da Fibria vêm trabalhando para reduzir a zero o descarte, é uma meta para 2025. Neste ano, a fábrica de Três Lagoas vai reduzir 60% da geração de resíduos e disposição em aterro. Até 2025, a Fibria vai zerar a geração de resíduos. Parte será queimada e o restante será transformado em corretivo de solo, certificado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Voltará para as florestas. Até 2025, não haverá mais disposição em aterro, segundo as metas de sustentabilidade da Fibria.

JP - Qual o volume de água captado para o processo de lavagem das fibras de eucalipto e qual a quantidade devolvida ao leito do rio Paraná?

Raasch – A Fibria tem os melhores consumos específicos de água, 22m3 por tonelada de celulose, e 90% voltam ao rio em ótimas condições de retorno. A Fibria possui sistema avançadíssimo de lançamento de efluentes e os melhores índices comparados aos valores regidos por lei, com análises frequentes normatizados pelo Conama. 

JP – Haverá necessidade de aumentar a captação de água?

Raasch - A água que é captada e submetida a tratamento para retornar ao leito do rio Paraná, em volume de 5.300 metros cúbicos/hora, dá para abastecer 1,2 mil habitantes e o programa de racionalização tem reduzido a captação a cada ano, passando o consumo de 36m3, em 2009, para 22m3, em 2013, por tonelada de celulose. A vazão do rio Paraná é de 2.600 m3 por segundo. A Fibria tira 0,2 m3 por segundo, o que equivale a 0,0076% da vazão. De 1,5 m3 que capta para lavar as fibras de madeira, a fábrica devolve 1,3 m3. Na produção, é dispersado 0,007% e incorporado ao processo de produção apenas 0,0001%.

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