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ECONOMIA

Etanol e eleição nos EUA

Leia o editorial do Jornal do Povo, na edição que circula neste sábado(12)

12 SET 2020 - 06h:00Por Larry Rohter

Todd Chapman, o recém-chegado embaixador americano em Brasília, acaba de aprender essa lição importante a sua própria custa. Mas não foi o primeiro -- e nem será o último -- a ser emboscado por um assunto cuja aparente natureza puramente técnica esconde um complicado jogo de orgulho nacional e interesses econômicos.

Segundo O Globo, em contatos com parlamentares brasileiros e funcionários de alto escalão, Chapman teria pedido que as tarifas de importação de etanol fossem zeradas. O objetivo seria fortalecer a reeleição de Trump no estado-chave de Iowa, maior produtor de milho nos Estados Unidos e baluarte da indústria do etanol americana, e a recompensa para Bolsonaro seria um segundo mandato para seu maior aliado.

O programa americano de etanol não tem o mínimo sentido econômico; sua lógica é política. Não somos  grande produtor de açúcar, então tivemos de recorrer ao milho. Só que o milho, quando comparado ao açúcar, é pouco eficiente: cada unidade de energia empregada na produção de etanol à base de açúcar gera ao menos oito unidades de energia, enquanto com milho nem chega a dois.

Mesmo assim, presidentes americanos de ambos os partidos têm apoiado o esforço, que requer enormes subsídios para sobreviver e desencadeou uma guerra de tarifas com um país amigo. As justificativas variam de um governo para outro: a segurança nacional, a proteção do mítico pequeno agricultor, a criação de novos empregos em novas indústrias etc. Mas o principal beneficiário é sempre o mesmo: o agronegócio americano e seu poderoso lobby em Washington.

Em 2008, quando terminei uma década como correspondente no Brasil, fui diretamente para a cobertura da campanha presidencial americana. Acompanhei Hillary Clinton, John McCain e Barack Obama e logo percebi a potência do lobby do milho.

Até Obama, supostamente o mais progressista, se curvava ante sua força: “Não serve a nossa segurança nacional ou econômica substituir petróleo importado com etanol brasileiro”, declarou o então senador de Illinois, estado que é o segundo maior produtor de milho no país. 

Fiquei surpreso ao ler do envolvimento de Chapman nessa polêmica. Mais de 40% dos embaixadores nomeados no governo Trump não são diplomatas, são amigos ou doadores de fundos de campanha, e se mostraram especialistas em confusões. Mas Todd Chapman não é marinheiro de primeira viagem no Brasil. É um profissional, capaz e normalmente discreto, e é por isso que desconfio do papel dele nesse imbróglio.

Em nota oficial de 3 de agosto, Chapman afirmou que “em nenhum momento solicitei aos representantes brasileiros que tomassem quaisquer medidas em apoio a qualquer candidato presidencial”. Tudo bem. Acredito que não tenha sido a intenção explícita dele ajudar Trump a triunfar em Iowa. Mas o efeito prático de qualquer suspensão, quatro meses antes da nossa eleição presidencial, das tarifas sobre o etanol americano seria dar a Trump uma vitória comercial e fortalecer as chances dele no estado.

Se o objetivo foi, como declara, a “defesa de interesses comerciais de longa data”, qual a urgência em buscar uma solução neste exato momento, numa conjuntura política altamente delicada? Por que não podia esperar até novembro, depois da eleição? Com todas as incógnitas, é fácil entender por que o Comitê de Relações Exteriores da Câmara americana, controlada pela oposição democrata, pediu explicações ao diplomata e exige que “apresente cópias completas e sem supressões de todo e qualquer documento relacionado a qualquer discussão” sobre etanol.

Tomara que o Congresso e um novo presidente também tenham a coragem de acabar quanto antes com o gigantesco sorvedouro financeiro que é o programa americano de etanol.

 

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