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LITERATURA

Jornalista fala de comunicação em livro escrito para tese de doutorado

Análise do poder da comunicação é “experimento filosófico” que inclui experiências e aprendizado em livros com a própria vida

3 FEV 2018 - 11h:08Por Danielle Naves de Oliveira

Este livro é um experimento filosófico em torno da comunicação. Não se presta a explicar sistematicamente o tema, tampouco esmiuçá-lo na linha da clareza e da distinção, mas convida a uma multiplicação de perspectivas, a um passeio no qual os caminhos ainda não estão traçados. Assim, propõe que a comunicação seja tratada, questionada, investigada e reinventada em vários aspectos: civilização, melancolia, comunidade, corpo, imagem, imaginação, espanto, desterro. Todos esses elementos são atravessados pela noção de poros, palavra grega que significa passagem. O poro é uma espécie de imagem-força que perpassa todo o livro e, caso o leitor julgue necessário, pode ser utilizado como chave de interpretação.
O que ele comunica? Uma exposição, uma ferida e uma vivência. A “Exposição” diz respeito a uma filosofia dos poros, a uma história da passagem/comunicação como fundamento civilizatório e ocidental. A genealogia grego de poros é evocada com a ajuda de Sarah Kolman, autora de um dos mais belos estudos sobre o tema, cujo título é “Como escapar”. A comunicação é exposta como um fenômeno que ultrapassa os espaços públicos e políticos, que se encrava na técnica, no desterro, na magia e na inventividade humana.
Poro é o que destrói nosso sonho de integridade. E o faz não de uma destruição a marteladas, explosiva, mas de uma destruição-diluição, líquida, pelas bordas, pela pele, pela força do impreciso. Um poro não se constrói, não se delimita, não se dobra à lei da forma. É sobretudo abertura para a existência, para o que há de comum na trajetória de cada humano, para o absurdo de sua solidão, para a remota possibilidade de comunicar a própria condição. Poro é simplesmente – ou estranhamente – a passagem para a comunicação.
Meu objeto de estudo é a comunicação. Durante os últimos cinco anos meditei sobre pequenos, fundamentais, problemas que a envolvem. Um deles é a resistência, que na pesquisa aparecem sob diversas formas: fronteira, passagem, terror, mesmo amizade ou philia. Comunicar é resistir ao indiferenciado, ao caos, mas sempre os absorvendo e novamente transpirando; é trazer na pele os traços da finitude. Apesar do “sequestro comum” ou quem sabe graças a ele, em vez de método o que se constituiu aqui foi uma comunidade -  de falas, encontros, mestres e alunos, livros e leituras, contemporâneos e extemporâneos.
Danielle Naves de Oliveira é jornalista campo-grandense graduada na UFMS, mestrado e doutorado na USP e bolsista da Universidade de Frankfurt. Reside em Marburg, Alemanha, onde atua como tradutora. Este livro é resultado de sua tese de doutorado, lançado recentemente pela Editora Paulus.

 

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