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ENTREVISTA

MS vai participar dos estudos sobre o uso da vacina BCG contra a Covid-19

Pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e UFMS incluiu o Estado no trabalho de pesquisa que começa em outubro

20 SET 2020 - 08h:00Por Beatriz Magalhães

Em outubro, a Fiocruz e o instituto de pesquisa infantil da Austrália, vão iniciar testes em profissionais da área de saúde com a vacina BCG, usada no combate à tuberculose, para verificar se pode ser usada também contra a Covid-19. O estudo será realizado também em Mato Grosso do Sul, além do Rio de Janeiro. O pesquisador da Fiocruz e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Júlio Croda, é um dos responsáveis pelo projeto e pela inclusão do Estado nos estudos. Sobre isso ele concedeu entrevista ao jornalista Ginez Cesar, da Rádio CBN de Campo Grande. A seguir os principais trechos.

Nessa nova pesquisa que sendo conduzida pela Fiocruz, o que podemos dizer até agora da BCG em relação à Covid-19?

Júlio Croda: Os dados que temos sobre a Covid-19 ainda não existe e é por isso que vamos fazer esse estudo, um ensaio clínico de fase III, como está sendo feita para outras oito vacinas específicas para Covid-19 e que estão sendo testadas em todo o mundo, e algumas no Brasil. O objetivo maior é envolver 10 mil voluntários, trabalhadores da área da saúde da Austrália, Inglaterra, Espanha, Holanda e Brasil, e avaliar se essa vacina é eficaz. A segurança já sabemos, porque é uma vacina que é utilizada há décadas, mais de 120 milhões crianças são vacinadas anualmente, então já temos confiança em relação a segurança e então vamos avaliar melhor se ela é eficaz contra a Covid-19. 

No caso da BCG, o que já se tem de pesquisado que a torna uma alternativa possível para a Covid-19?

Júlio Croda: O que tem são dois importantes estudos. Um realizado na África, em crianças, onde foi feito uma revacinação, e no período de um ano e meio houve proteção em relação a infecções virais, de forma geral, e diminuiu o óbito por essas infecções em crianças que receberam essa vacina.

Na Suécia, há umas semanas, saiu um artigo mostrando, também, que a BCG protege contra infecções virais, também em idosos. Mostrando um efeito bastante protetor. Não foi testado especificamente para a Covid-19, e esse é o objetivo da pesquisa. Temos esses dois dados preliminares que mostram isso e que faz com que possamos tentar testar essa vacina para Covid-19, que é o que estamos fazendo neste momento.

Como funciona esses estudos de efetividade?

Júlio Croda: É preciso pensar que vamos vacinar bilhões de pessoas no mundo, então só conseguimos identificar os casos adversos graves menos frequentes em ensaios de larga escala, que envolve 30, 20 ou 10 mil voluntários, como é o caso da nossa vacina de BCG e assim você consegue perceber esses casos adversos graves. Então precisamos ter cuidado quando falamos de vacina, porque ela tem um histórico de segurança. A população confia na vacina, justamente por atender esses critérios de qualidade que são demonstrados através dos estudos.

Nós tivemos anúncios e estamos acompanhando isso até de forma ansiosa, do surgimento de uma vacina que seja realmente capaz de trazer segurança em relação a Covid-19, e nós temos a Rússia, que também anunciou essa vacina e que já está fazendo, inclusive, a distribuição das doses. O senhor tem algum conhecimento mais aprofundado dessa vacina?

Júlio Croda: Foi feito estudos de fases um e dois, bastante limitados, com 76 voluntários. Comparativamente, quando a gente olha por exemplo o da Oxford, que foi interrompido para se avaliar o evento adversos graves. Eles só testaram em militares e membros do Governo, não tiveram grupo controle, então é muito limitado o estudo que foi feito para uma vacinar ser aprovada pela agência regulatória da Rússia sem ter nem iniciado os estudos de fase três, então acho que o rigor científico não está sendo respeitado. Eles anunciaram, depois de todas as críticas que sofreram, inclusive da OMS, que vão fazer um estudo de fase III envolvendo 40 mil voluntários. Esperamos que nesse estudo tenha um vigor científico que todas as vacinas precisam ter e que mostre que o produto tenha a qualidade, segurança e eficácia. 

Apesar de eles terem anunciado, não foi visto uma euforia tanto das autoridades de saúde, quanto do mercado. Talvez se tivesse sido respeitado todos os critérios científicos, tivéssemos percebido uma euforia maior em uma vacina já pronta, certo?

Júlio Croda: Exatamente, é que os dados não são consistentes ainda. Apesar de ter uma tecnologia bastante interessante, que está sendo usada em outras vacinas. Muito provavelmente se as outras vacinas forem eficazes tem grande chance da russa também ser, mas é importante trabalhar com calma e entendermos realmente o que nos aguarda no futuro em relação especificamente a essa vacina. 

Aqui em Mato Grosso do Sul, o Governo do Estado declarou que está havendo uma desaceleração no número de casos novos de Covid-19, e também ressalta que a tranquilidade só virá após a confirmação de uma vacina, mas que houve sim uma queda nesses novos casos. Como o senhor está avaliando e acompanhando esse número aqui no Estado?

Júlio Croda: A média móvel de casos realmente diminuiu nessa semana, mas a média móvel de óbitos ainda se encontra na estabilidade. Espera-se que com a diminuição dos casos a queda dos óbitos também ocorra. É importante ressaltar que todos os estados passaram por esse momento de pico, quando não se define uma data específica tem-se vários dias com um média móvel estável, em termos de número de casos. Nós tivemos um pico aqui no Estado, e o próximo movimento é queda, como já está acontecendo no Brasil. 

É isso que a gente aguarda, mas é importante reforçar que quanto maior for a adesão das medidas preventivas de uso de máscara, distanciamento, lavagem de mãos, mais rápido chegará esse momento e poderemos ter uma redução maior quanto mais pessoas aderirem a essas medidas. Não existe justificativa nenhuma para estar se aglomerando em atividades de lazer, em balneários turísticos, não se justifica nesse momento da pandemia, mesmo com esses indicadores de queda.

Achar que o perigo já passou é um engano?

Júlio Croda: Totalmente, porque para você atingir o controle do Covid-19, o Centro de Controle de Doenças do Estados Unidos, considera que tem que haver um caso por cem mil habitantes por dia. No Brasil estamos com oito casos por cem mil habitantes diariamente. Estamos longe de atingir o controle da doença. Talvez, como foi comentado pelo Secretário Estadual de Saúde, Geraldo Resende, só com a vacina, então, até termos essa vacina e atingir esse indicador, é importante adotar todas essas medidas de prevenção. 

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