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ARTIGO

O bobo da corte

Todos eles sabiam que um imbecil feito o Joesley seria importante em algum momento

9 SET 2017 - 08h:01Por Mentor Neto

"Esse Joesley, coitado, é um idiota útil e até hoje não entendeu. Cheio de si, alega que conhece e se adapta bem ao "sistema". Não percebeu, coitado, que foi apenas usado por esse "sistema". Que foi uma criação do tal "sistema" .O "fenômeno" Joesley - que apareceu do nada e meteoricamente se transformou num dos homens mais ricos do Brasil - foi criado nos anos Lula à custa de dinheiro do BNDES. Não percebeu, o pobre coitado, que estava sendo transformado apenas num operador. Um doleiro de luxo. 

Casou com a moça bonita da televisão, viveu um período de opulência e glamour, porque precisavam colocá-lo numa posição acima de qualquer suspeita. Mas o "sistema" estava ali, o tempo todo, de olho nele. Estavam engordando o porco para depois devorá-lo. O "sistema", neste caso, é uma seleção de políticos traiçoeiros que são donos do Brasil há anos. Os caciques. O "sistema" é suprapartidário.
 Todos eles sabiam que um imbecil feito o Joesley seria importante em algum momento. O sujeito se transformou numa caderneta de poupança desses políticos e partidos. Precisa ajudar o Lulinha!  Chama o Joesley. Precisa de dinheiro para a campanha de fulano!  Chama o Joesley. Precisa calar a boca do Cunha!  Chama o Joesley.  Precisa pagar o advogado do Aécio!   Chama o Joesley.

 Joesley era um caixa eletrônico ambulante de políticos e partidos, recheado de dinheiro nosso - seu e meu - desviado para inflar suas empresas. Joesley, que se julga malandro, foi o otário de plantão para os políticos da velha guarda. Esses sim, ratazanas experientes. Um malandro de verdade não teria caído nesse conto. Joesley só percebeu que era o mais trouxa de todos no começo desse ano, quando a corda começou a ruir para o seu lado. Justo ele, que se imaginava amigo do rei, acima do bem e do mal, com acesso a toda essa "gente importante" que jamais teria conhecido.  Joesley é um deslumbrado. O tempo todo fala de suas reuniões com os políticos como se fosse um igual. Se gaba da Ticiana, deslumbrado que também está de casar com uma sub-celebridade.

 Joesley é isso.  Um ignorante, um trouxa, um deslumbrado que foi usado pelos políticos experientes até que percebeu que o "sistema" o tinha expurgado.   Aí começou a gravar tudo. Até o Temer. Saiu com seu gravador vagabundo tentando se munir de provas que pudessem ser negociadas. Foi então que encontrou o Janot. Janot sabia que tinha os dias contados na PGR.  E sabia quem era o verdadeiro Joesley.  Sabia que poderia sair da PGR como o homem que derrubou a República.  Era só fazer Joesley falar e mostrar suas gravações. Então fechou aquele acordo de delação premiada de pai para filho. Joesley abriria o jogo e sairia livre. Joesley, claro, acreditou.

Afinal era o amigo do rei, o "sistema" veio salvá-lo, pensou. Janot só não sabia de duas coisas:
1. Joesley não tem competência para incriminar ninguém. Ao contrário. Só ele se queima, porque o "sistema" é mais esperto.  Nem comprar gravador ele sabe. Então o acordo acabou não servindo para nada, a não ser expor a estratégia de Janot e a safadeza de Joesley.

2. Que o "sistema" está, também, acima dele (Janot) e já havia corrompido até seu braço direito, Marcelo Miller, que já operava ao lado de Joesley. O "sistema" é mais poderoso que Janot, Joesley, você e eu.  O "sistema" ferrou o Joesley, o Janot e o Marcelo Miller. E está aos poucos esvaziando a Lava Jato.
 Mas isso a gente sabia. E talvez justamente por isso a gente não bate mais panelas nem sai as ruas. Inconscientemente aprendemos que somos todos Joesleys: trouxas que o "sistema" utiliza nas eleições e depois dispensa. Só não ficamos ricos, nem casamos com a Ticiana.

*É escritor

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