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O memorandum revelador da Guerra com o Paraguai

1 SET 2018 - 07h:26Por Valmir Batista Corrêa e Lúcia Salsa Corrêa

A fronteira oeste do Brasil com as repúblicas sul-americanas, a partir de meados do século XIX, desenvolveu-se graças à navegação fluvial que possibilitou à província de Mato Grosso o seu estabelecimento e o escoamento de sua produção de matérias primas. A vinculação de Mato Grosso do Sul com a bacia do Prata foi vital como alternativa de sobrevivência com a decadência da produção mineira em sua região norte e com a precariedade do comércio das rotas terrestres que ligavam Cuiabá a Goiás, a São Paulo e ao Rio de Janeiro, desde o período colonial. Assim, a utilização do rio Paraguai como uma das artérias da bacia pluvial platina, longa mas relativamente segura e mais barata, permitiu um contato mais estreito  mato-grossense com países vizinhos e praças comerciais platinas, que eram pontos de distribuição de mercadorias de diversas procedências, além da corte brasileira.

Antes mesmo da guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), que mudaria de maneira sensível as relações políticas e econômicas do Brasil  no Prata, a Província de Mato Grosso já desfrutava da navegação dessa via fluvial. Entretanto, essa alternativa era marcada pela irregularidade e pelas relações conflituosas com o governo do Paraguai, que,  por diversas vezes, impediu o livre acesso de embarcações brasileiros e estrangeiras rio acima, mesmo em tempos de paz. Após a guerra com os paraguaios, o Brasil conseguiu, enfim, a livre navegação do Paraguai até o porto de Corumbá, repercutindo sensivelmente no desenvolvimento econômico em todo o Mato Grosso e possibilitando a ocupação efetiva de uma fronteira antes mal definida e pouco povoada. 

Em vista disso, a cidade portuária de Corumbá, fundada para ser um ponto estratégico de defesa e abastecimento na fronteira com os castelhanos, em fins do século XVIII, tornou-se após a guerra um centro cosmopolita e de grande atividade comercial, irradiando sua influência por todo o Mato Grosso. Ali chegou o comerciante Manoel Cavassa em 1857 e um ano depois já havia construído um armazém, que viria a ser a primeira edificação de alvenaria na vila, dando, segundo Estevão de Mendonça, “mais desenvolvimento às suas operações mercantes, principalmente pela compra vantajosa e exportação de couros, então artigo de venda imediata nos mercados de Assunção e Buenos Aires”.(Extraído de Datas-matogrossenses, 1919). A partir de então, intensificou seus negócios com couro, sal, poaia, tecidos e outros gêneros de primeira necessidade e incentivou a vinda de parentes e amigos para estabelecerem-se em Mato Grosso. Em vista disso, amealhou um respeitável patrimônio no período anterior à invasão dos paraguaios. Cavassa chegou a ser proprietário de cinco casas em Corumbá e de um grande depósito de couros em Tacumbu (nos arredores de Assunção do Paraguai), acumulando um ativo de mais de 1.400 contos de réis, entre outros haveres.

Assim, o documento Memorandum que dirige da cidade de Corumbá o cidadão Manoel Cavassa do Exmo. Senr. Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, em 22 de janeiro de 1894, que resgata a sua trajetória de vida e também representa um importante testemunho do processo histórico que caracterizou a região de Mato Grosso e os rumos da organização da fronteira nesse período, é objeto deste estudo pela sua originalidade e evidente significado. Trata-se de uma cópia autenticada e manuscrita, com pouco mais de uma centena de páginas, arquivada na biblioteca do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro, por doação do historiador cuiabano Estêvão de Mendonça que, por sua vez, a recebeu de um dos filhos de Manoel Cavassa, João Cavassa. Mendonça transcreveu parte do Memorandum na resumida biografia de Manoel Cavassa publicada em sua conhecida obra Datas mato-grossenses.

*Valmir Batista Corrêa é historiador, associado efetivo titular da cadeira nº 01 e Lúcia Salsa Corrêa, historiadora, associada efetiva titular da cadeira nº 39, ambos do IHGMS, autores do livro Memórias da Grande Guerra, da série de oito volumes Memória Sul-mato-grossense, lançada em 23 de maio pelo Instituto Histórico e Geográfico de MS.  

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