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ENTREVISTA

'Sociedade não vê o trabalho infantil'

No Estado, 46 mil crianças foram encontradas nesta situação no ano passado; "é preciso pôr atenção nisso", diz especialista

4 NOV 2018 - 08h:30Por Loraine França

Dados do Ministério do Trabalho em Mato Grosso do Sul revelam que o estado está em 11º lugar no ranking nacional do trabalho infantil. Em 2017, 46 mil crianças e adolescentes foram encontradas nessa situação em Mato Grosso do Sul. Desse total, aproximadamente, 8 mil têm menos de 14 anos. 
Segundo a coordenadora de Combate ao Trabalho Infantil do Ministério do Trabalho, Maristela Borges Saraví, o Dia de Finados, celebrado em 2 de novembro, é a data com maior índice de crianças e adolescentes trabalhando. Para combater esse tipo de atividade, equipes de fiscalização percorrem os cemitérios dos municípios. Em Campo Grande, 10 cemitérios públicos e 7 particulares são alvos de operação contra o trabalho infantil. 

“O trabalho infantil é uma violação [aos direitos de crianças e adolescentes] e as principais consequências do trabalho infantil estão relacionadas aos malefícios da saúde da criança e do adolescente”, explica. 
Entre as principais atividades exercidas por crianças e adolescentes no dia de finados estão a limpeza e manutenção de túmulos e auxílio na venda de flores, velas, bebidas e alimentos. 
Para a coordenadora, é preciso que a sociedade, família e poder público voltem suas atenções para o assunto. “O trabalho infantil é invisível aos olhos da sociedade. Então, a pessoa vai no cemitério, visita o túmulo do seu parente e não enxerga o trabalho infantil”. 

Jornal do Povo – Como funcionam as fiscalizações?
Maristela -
Todos os anos nós realizamos esse operativo no Dia de Finados. É uma equipe com vários órgãos envolvidos. Porque normalmente as crianças e adolescentes encontradas trabalhando em Dia de Finados estão com a família. É o pai, é a mãe que leva. Então, o que precisamos? A gente precisa da colaboração deles para que não levem as crianças [ao cemitério], para que se conscientizem dos malefícios do trabalho infantil. 

JP - Em 2017, foram encontradas 42 crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil. Isso é preocupante?
Maristela - Muito. Posso te afirmar porque sou a coordenadora estadual de Combate ao Trabalho Infantil e fiscalizo todos os municípios. Posso afirmar que o Dia de Finados é o grande e único foco de trabalho infantil que temos no Mato Grosso do Sul. Não temos mais nenhum foco.

JP -  Como é o cenário do trabalho infantil no Estado?
Maristela -
É isso mesmo, nós ainda temos bastante trabalho infantil. A gente percebe que o trabalho infantil voltou. Teve um período que estávamos bem estabilizados, quase não se encontrava mais. Mas, a gente tem percebido, agora, no ano passado e este ano, que a gente está encontrando bastante trabalho infantil. Então, esses números, realmente, refletem a realidade. Ainda temos muitas crianças e adolescentes trabalhando. 

JP - O trabalho infantil é uma violação aos direitos garantidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente?
Maristela -
É uma violação e, as principais consequências do trabalho infantil estão relacionadas aos malefícios da saúde da criança e do adolescente. Comprometimento da saúde, do desenvolvimento da criança e do adolescente. Por que? Onde eles estão?  Eles estão em atividades proibidas, em atividades que constam em uma lista que a gente tem, de 93 itens que são proibidos para menores de 18 anos. E, desses 93, prepondera aqui em Mato Grosso do Sul as atividades de oficinas mecânicas, lava jato, serralherias, marcenarias, que são as atividades de risco onde acontecem a maior parte dos acidentes de trabalho com crianças e adolescentes. 

JP – O que precisamos para mudar essa realidade?
Maristela -
Da conscientização da população. Porque o trabalho infantil é invisível aos olhos da sociedade. Então, a pessoa vai no cemitério, visita o túmulo do seu parente e não enxerga o trabalho infantil. Às vezes, até vem de encontro ao trabalho que a gente está fazendo lá. Não consegue enxergar aquela atividade como trabalho infantil. E a gente precisa conscientizar todos. Precisamos do apoio de todos. Família, sociedade, poder público, estar sempre vigilante.

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