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ENTREVISTA

‘Trabalho será guiado por projetos’

Especialista em treinamento de profissionais prevê que escolha de colaboradores deixará de ser por currículo em pouco tempo

21 OUT 2018 - 08h:30Por Valdecir Cremon

A revolução digital está transformando as relações de trabalho. Historicamente, a tecnologia sempre transformou as empresas para adoção de novos processos e automatizando funções operacionais. Agora, as mudanças vão chegar às relações de trabalho e, ao que tudo indica, o futuro do trabalho será guiado por projetos. Esse modelo é usado há bastante tempo no mercado de marketing, publicidade e principalmente tecnologia. Consiste na contratação de profissionais por tempo determinado, tendo como referência o projeto que precisa ser desenvolvido. O administrador de empresas, Paulo Exel, diz que há uma revolução em andamento nas relações de trabalho por conta disso.

Jornal do Povo – Essa mudança está próxima?
Paulo Exel - Mesmo parecendo um cenário distante, é possível que as relações de trabalho cresçam muito nos próximos anos. Isso porque contratar os profissionais de acordo com a demanda, vinculados a projetos é uma excelente forma de gerenciar os recursos (humanos e financeiros), além de proporcionar flexibilidade para manter a equipe sempre atualizada com conhecimento.

JP – O profissional do futuro, portanto, será contratado para elaborar e executar um projeto?
Exel – Do ponto de vista das empresas, contratar por demanda significa manter o recurso sempre ativo, diminuindo o risco de ociosidade nas equipes. Uma vez que o profissional é contratado para entregar determinada solução, ou implantar um projeto específico, é possível estimar uma quantidade de horas que irá empregar e o quanto isso custará. Mesmo que alterações sejam feitas ao logo do tempo, e o projeto atrase por inúmeros fatores, é muito mais fácil mensurar o ROI (Retorno Sobre Investimento) de cada iniciativa. A previsibilidade no orçamento é talvez uma das maiores vantagens para a empresa, já que em uma gestão de projetos é possível planejar os recursos que serão destinados e prever se o investimento valerá a pena. 

JP – Mas, e como deve ser tratada a questão da governança corporativa e do conhecimento empresarial? 
Exel - Ao terminar os projetos, se a empresa não tiver uma boa governança, é possível que a história e o conhecimento gerado ao longo do processo se perca junto com a saída dos profissionais. Os erros e acertos do percurso em cada trabalho são valiosos para a história corporativa, já que essa se constrói ao longo das entregas que realiza. Em um cenário onde a força de trabalho é contratada sob demanda, as empresas têm um grande desafio: registrar e manter “dentro de casa” o histórico e a memória empresarial.

JP – Quais são as principais vantagens para os profissionais nesse novo modelo de trabalho?
Exel -
Na perspectiva dos profissionais, o futuro do trabalho guiado por projetos também tem inúmeras vantagens. Até porque os interesses de carreira devem evoluir no mesmo sentido, principalmente pautados pela flexibilidade, autogerenciamento de tempo e propósito. Os profissionais irão se conectar e desconectar a tarefas alinhadas aos seus objetivos de vida. Participar ou não de projetos será uma decisão pessoal e, certamente, muito além do dinheiro, fatores como tempo, desafio profissional, networking e portfólio serão condições a serem avaliadas. 

JP – Os currículos tendem a ser adaptados a essa nova realidade?
Exel –
Acredito que sim. Veremos grandes mudanças, já que o currículo não estará mais baseado em empresas onde cada um trabalhou, mas que tipo de projetos cada candidato participou, os resultados que foram entregues e como o profissional apresenta o próprio portfólio de experiências. A trajetória profissional vai aproximar as pessoas ao empreendedorismo, já que cada um terá que gerenciar seu próprio negócio, incluindo desde alimentar um pipeline de clientes, gestão financeira, entregas, metas e resultados. 

JP – E também devem ocorrer mudanças nas metrificações, ascendência hierárquica, etc?
Exel –
Teremos grandes desafios nesse sentido, já que mesmo com todas as mudanças propostas pela revolução digital, a cultura de relação trabalhista e de construção de carreira ainda é muito baseada em crescimento hierárquico e no pensamento cartesiano de ficar anos dentro da mesma empresa. Vencer essa barreira cultural é algo que precisa ser conquistado tanto por parte das empresas quanto por parte dos profissionais. Certamente o futuro do trabalho reserva grandes mudanças para as relações entre empresas e profissionais. Estar pronto para essas transformações separa os profissionais que irão se adaptar e colher as vantagens dessa mudança de mindset do que os que irão apenas lamentar a falta de oportunidades.

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