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SAúDE

Doenças da beleza: quando a vaidade se transforma em obsessão

A linha que separa você ser "saudável" de ter uma compulsão por algo é tênue - mas esse transtorno é cada vez mais comum e nos adoece

28 JUL 2017 - 09h:50Por Redação

Quantas vezes você se olhou no espelho e ficou descontente com o que viu? Deixou de usar determinada roupa ou ir a algum evento por não estar satisfeita com a imagem que ali refletia? Em algum momento da vida, todas as mulheres já questionaram a beleza bem em frente a elas: uma gordurinha que não deveria existir, seios mais firmes (e maiores), pele mais lisa e a obrigação de seguir uma alimentação “supersaudável”.

Para alguns, isso pode parecer frescura e até mesmo exagero, mas as doenças da beleza são reais e cruéis com as mulheres. A psicanalista Joana Vilhena Novaes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social (LIPIS), da PUC-Rio, aponta a mudança na forma como esses transtornos têm sido percebidos nos últimos anos.

“Há 40 anos, se dissesse para você que eu malho todos os dias, não como salmão por ter hormônios, faço exames periódicos e não como carboidratos depois das 18h, você provavelmente diria que eu tenho um transtorno. Hoje em dia, essas práticas são ressignificadas”, explica.

A percepção do que é a beleza adapta-se de tempos em tempos, dificultando o diagnóstico e a abordagem sobre tais patologias. Tanto que elas só foram incluídas no Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM, na sigla em inglês) em 1995. “O nome psiquiátrico é transtorno dismórfico corporal, que é, na verdade, um transtorno obsessivo compulsivo (TOC) com ‘ares contemporâneos’. São os transtornos que geram uma distorção na imagem corporal e também uma mudança severa no regime alimentar – como a anorexia, vigorexia, bulimia e ortorexia“, aponta.

Apesar de ser algo relativamente recente, o entendimento sobre como essas patologias afetam a vida das pessoas muda com o tempo. Já houve décadas em que estar acima do peso era o padrão de beleza, com mais curvas e “gordurinhas”, ao passo em que, hoje, vivemos uma era de culto ao corpo “saudável” – e muito mais magro do que antes, diga-se de passagem. “Esses parâmetros para enquadrar e classificar o que é doença e o que é vaidade e cuidado também mudam ao longo da história”, elucida Joana.

Vaidade x obsessão

Ninguém vai dizer que você não pode cuidar do seu cabelo, da pele, usar maquiagem, alimentar-se bem e praticar exercícios físicos, pois isso é algo doentio. Como explica a Dra. Joana, algumas atitudes cotidianas podem ajudar a diferenciar a vaidade de comportamento obsessivo. “A pessoa tem uma relação compulsiva com comer, exercitar-se e aceitar-se. Ela faz isso não porque quer, mas por não conseguir evitar essa série de comportamentos que se encaixam no quadro de transtornos de ansiedade bastante severos.”

A consequência imediata dessa rigidez excessiva é o prejuízo nas relações laborais e sociais, transformando o “ritual diário” em dogma. “Normalmente, a pessoa acredita que o que ela está fazendo é para o bem estar de seu corpo e para sua saúde, embora muitas dessas práticas – rígidas e pouco flexíveis – tragam mais malefícios do que benefícios”, pontua.

É uma prática de aprisionamento, tornando-se algo que você ‘não consegue negociar’.

Pense quando você (ou alguém conhecido) deixa de sair porque se sente “gorda” ou quando é preciso acordar cinco, seis horas antes do horário habitual para conseguir cumprir a agenda de exercícios, atrasando-se para o trabalho. Quando é difícil relacionar-se com outra pessoa, pelo medo excessivo de não ser aceita por conta de seu corpo, por exemplo, é o que separa obsessão da vaidade.

Uma doença silenciosa (e de gênero)

Do jeito que se fala das consequências gravíssimas do TDC (Transtornos Dismórficos Corporais), parece quase impossível não perceber quando ele começa a se instalar no corpo de alguém. A grande questão é que o comportamento obsessivo não aparece de repente: ele chega lentamente, como um “cuidado extra”, uma “preocupação com o bem-estar” ou aquele famoso “estou maneirando durante a semana”.

“É aquilo que parece uma preferência ou uma filosofia de vida, sempre de forma sutil. ‘Eu posso comer isso, mas prefiro não’ e assim vai. É um aumento gradual até que a pessoa se torna obcecada por aquilo, podendo usar de métodos compensatórios como a indução do vômito, uso de laxantes ou exercícios físicos imediatos para ‘resolver’ esse problema'”, explica Joana Vilhena Novaes.

 

(M de Mulher)

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