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Fashion killers: os rappers conquistaram seu espaço na moda

Se antes eles eram inspiração para designers e labels, hoje dão as cartas do jogo.

21 AGO 2017 - 10h:16Por Redação

Falar da relação da moda com o hip-hop na atualidade sem passar pela trajetória do norte-americano Kanye West é missão impossível. Autointitulado “o maior rapper de todos os tempos”, o nada modesto artista começou sua carreira sendo associado à sua camisa polo cor-de-rosa tipo mauricinho combinada a uma constante corrente dourada no pescoço. O tempo passou e depois de discos extraordinários, como My Beautiful Twist Dark Fantasy (2010), Yeezus (2013) e seu mais recente, The Life of Pablo (2016), Kanye finalmente conquistou o espaço que sempre desejou entre os que vivem no universo das coleções e passarelas.

Tudo começou com uma parceria inusitada com a Louis Vuitton, em 2009. Muito antes de os sneakers estourarem no mundo do luxo, o rapper surpreendeu a todos criando uma coleção de tênis para a etiqueta francesa. Seis anos depois, surgiram as primeiras peças da Yeezy Season – em colaboração com a Adidas –, que está entre as linhas mais desejadas do mercado internacional. Mesmo com preços altos (os calçados chegam a 3 mil reais), os itens dão sold out imediato.

O valor do gueto

Mas nem sempre foi assim. Nos anos 1980, o luxo torcia o nariz para o hip-hop por puro preconceito. Foi preciso que o grupo norte-americano Run DMC estourasse com o hit My Adidas, em 1986, para que a relação começasse a melhorar. O streetwear se tornou um companheiro fiel do gênero e foi crescendo paralelamente a ele. Na década de 1990, o hip-hop percebeu o potencial que tinha para conquistar o mundo e, consequentemente, a moda.

E assim começou a se popularizar a cultura bling (das maxijoias de ouro e brilhantes, principalmente correntes). O intuito por trás do visual era fazer com que os jovens negros da periferia pudessem se enxergar em espaços de podercomo o de seus ídolos. Por isso, foi importante ver o nova-iorquino Grand Puba citando Tommy Hilfiger em suas músicas e usando a marca em suas apresentações. O mesmo vale para a aparição do norte-americano Tupac (1971-1996) com sua namorada no desfile de 1996 da Versace (outro must have entre os rappers da época).

Se naquele momento eles queriam mostrar que tinham dinheiro para comprar todas as roupas que desejassem, agora são responsáveis por pautar a moda e, obviamente, sabem tudo sobre ela. Deixaram de ser espectadores para se tornar verdadeiros conoisseurs, ou fashion nerds.

Não à toa, A$AP Rocky – o novo garoto-propaganda da Dior Homme e queridinho do momento – cita mais de 20 marcas em sua música Fashion Killa, de Prada a Ann Demeulemeester. O mesmo vale para a nova faixa, RAF, em que ele pede para que ninguém toque em suas peças “by Raf Simons” (o designer belga, ex-Dior, atualmente é o diretor criativo da Calvin Klein). “Sinto que ele é importante porque foi o único capaz de fazer com que a moda se tornasse uma religião para garotos e garotas. Seus seguidores não se cansam de argumentar a seu favor quando o assunto é decidir qual é o estilista mais importante do mundo”, disse o rapper, nascido no bairro nova-iorquino Harlem, para a revista Time.

O cantor e produtor texano Travis Scott, que participou da campanha em vídeo de estreia de Anthony Vaccarello na Saint Laurent, é outro exemplo da simbiose moda/hip-hop. Além dele, impossível não citar o norte-americano Pharrell Williams: íntimo do estilista Karl Lagerfeld, criador de colaborações-desejo desde Adidas Originals até G-Star, estrela dos red carpets e o primeiro homem a estampar um anúncio de bolsas da Chanel (ao lado Cara Delevingne e Kristen Stewart).

Made in Brazil

Em solo tupiniquim, quem tem feito o maior sucesso é Emicida, para quem a maneira como o hip-hop se relaciona com o mercado de roupas e acessórios também mudou muito. Se por um lado ele sentia admiração pelo trabalho de criação fashion dos músicos Jay-Z, Puff Daddy e Pharell Williams nos Estados Unidos, e do Ice Blue (dos Racionais), no Brasil, por outro tinha aversão ao termo “moda”. “Era algo paradoxal. Muitas vezes, ela é interpretada como algo fútil e isso empobrece o diálogo. Na verdade, percebi que existe muita grandeza nesse tema e várias nuances que são fundamentais para uma sociedade conflituosa como a nossa”, diz à ELLE o rapper, que buscou referências nas iniciativas desses artistas para criar ao lado de seu irmão a sua grife, Lab, presente nas últimas duas edições da São Paulo Fashion Week.

Sobre a trajetória de Pharell, o rapper enaltece suas qualidades. “O que ele tem conseguido é algo que tento alcançar na minha caminhada: fazer a música que ama, se vestir como gosta e entender que, dentro da nossa realidade, a proximidade de marcas e arte pode acontecer de uma forma interessante e resultar em produtos bacanas, que as pessoas possam ter.”

Tássia Reis, rapper da nova geração, também é um nome da música nacional totalmente inserido na moda. Ela possui formação profissional na área, já foi modelo e recentemente esteve na passarela da Casa de Criadores em dois desfiles importantes: Isaac Silva (apresentado em parceria com a blogueira Magá Moura) e Brechó Replay (que contou com um manifesto sobre negritude e empoderamento).

Por fim, temos Rincón Sapiência, fashionista de carteirinha, que cita Alexandre Herchcovitch na música que dá título a seu álbum mais recente, Galanga Livre, lançado este ano. Apaixonado pelo intercâmbio que seu estilo musical costuma estabelecer com a moda, ele acredita em um futuro muito promissor para esse relacionamento. “As novas grandes marcas brasileiras sairão do circuito hip-hop”, aposta o artista paulistano com entusiasmo.

(mdemulher)

 

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